serem aqui gente


as mulheres-meninas da torreira

 

mulheres-crianças-meninas

ao peso das redes e das cordas

crescem na areia

beijando o mar

 

sabem das férias

o sabor a sal

a escamas no rosto

o corpo inteiro é

 

resistem

que mais se lhes não pede

não as chamam

vêm

não lhes pedem

fazem

 

crianças-meninas-mulheres

sorriem brincam são mais

no serem aqui

gente

 

(torreira; companha do murta)

quando o mar trabalha na torreira_maria brandão


maria brandão

nestes dias de sal
a queimar a pele
seca
sou mais que eu
sou “a mulher”

na areia quente
da praia
camarada da companha
sou
nas fainas de terra
ombreio com todos
por igual

mas

serei mais mulher ainda
quando o sol se puser
e vieres ter comigo
falando com voz de pão
sopa um copo
o corpo

 

(torreira, século XX)

quando o mar trabalha na torreira_armando bastos (palito)


armando bastos (palito)

 

o mar sorri-me em segredo
só eu entendo a sua linguagem
feita de ondas e espuma

conversas longas
temos
as mãos dão-se húmidas
onde sal sela
amizades

areia
onde nossos corpos
encontram descanso

os pés rompem a toalha
poisam na areia
para levantar voo
encontrar outro chão
de madeira feito

parto
ao teu encontro

no silêncio das ondas
são mais límpidas as cores

os nossos olhares cruzam-se
dizem-se coisas
falam de amores

 (torreira; século XX)

quando o mar trabalha na torreira_patricia carinha


patrícia carinha

patrícia carinha

 

aroma de mar

doce intenso

essências de sal e sol

refrescam o corpo

 

é esse o meu perfume

desde pequena que o uso

encontrei-o no meu deambular

de criança pela areia da praia

quando uma onda mais atrevida

me molhou toda

 

tenho o perfume entranhado na pele

por isso é de mar o meu rasto

rainha desta praia

também eu sou a xávega

 

(torreira; século XX)

quando o mar trabalha na torreira_ana e alfredo amaral


ana amaral e o filho alfredo

espectadores momentâneos
da arte

aguardamos
a chamada o grito
as palavras por sobre a areia voadas

seremos então
mais dois na faina
mãe e filho
mulher e homem
na labuta que o sol permite
o mar aceita
a vida exige

entretanto
na areia quente
a ternura
persiste

(hoje o alfredo é homem feito e braço de trabalho ao lado mãe – torreira; século XX)

ti antónio


ti antónio acabou

se tivesse que dizer dele

diria: o silêncio

 

parco de palavras

silencioso e metódico no gesto

homem de terra que de mar

já foi

 

o ti antónio

sempre me olhou assim

desconfiado

perguntando-se

(penso eu)

que fará este homem

com máquina fotográfica

aqui onde o que é preciso

são braços de trabalho?

 

tenho-o visto ultimamente

já um pouco acabado

não vai trabalhar na companha

mas não resiste ao “chamado do mar”

todos os dias caminha até ele

até onde as forças o deixam

para saber dos lanços

da faina

 

o ti antónio será acabou

de apelido

mas continua

pescador da torreira

no silêncio que sempre foi o seu

(torreira; 2006)

quando o mar trabalha na torreira_o arribar


arribar

o barco está a arribar

todos seremos poucos
para o trazer a terra

é preciso que não vire

cordas correm na areia
ganchos que urge
engatar
ir pelo mar até onde o corpo
permita

ensinar-lhe o caminho
mantê-lo direito apontado a terra
conforme o arrais

os gritos
correm pela areia
e todos
nunca somos demais

(torreira, século XX)

a pulso se puxa a mão


a força do sexo dito “fraco”

há momentos em que as máquinas não substituem a gorça humana, na xávega este é um deles e dos mais importantes.

quando a barca “arriba” traz com ela (onde faz fixe) a “cala” “mão de barca” (corda que fecha o cerco), mal o barco encalha na areia o arrais passa-a para a companha que, em terra, a espera para a levar a força de pulso até ao alador mecânico, sem lhe dar folga ou largar; o que faria perder todo o trabalho.

é na torreira, de todas as praias de xávega que melhor conheço, que as mulheres têm um papel fundamental na arte, neste registo fica bem patente a percentagem de mulheres que dão o seu esforçado contributo ao lanço.

(torreira, companha do marco, 2011)