maria toscano_da viagem das casas_lançamento


da esq p/ a drt: rui grácio, maria toscano, domingos lobo

da esq p/ a drt: rui grácio, maria toscano, domingos lobo

no passado dia 14 de março de 2013, na casa da escrita, em coimbra, maria toscano apresentou o seu primeiro livro de prosa ” da viagem das casas”, aqui fica o registo da intervenção, brevíssima, da autora.

nota biográfica
maria de fátima costa toscano

nasceu em campo maior em maio de 1963. é membro da ape. autora de poesia e prosa, em português desde 1973, editada em espanhol desde 2003, escreve em francês e inglês desde 2011. 7 livros de poesia publicados, 1 e-book e integra várias colectâneas de poesia.

estudou música, teatro e canto. em lisboa e coimbra criou cafés-concerto. canta fado, jazz e música clássica. nos anos 90 cria leituras encenadas sem a 4ª parede e críticas das técnicas de declamação.

em 2009, participa no iii festival internacional de poesia (Brasil, Dois Córregos), onde é poeta estrangeira convidada.

em 2010 realiza uma visita à argentina para divulgar a sua poesia escrita em espanhol em várias sessões de leitura organizadas pela SAPE e Poetas Argentinos (Buenos Aires, Iguazú…)

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texto lido no lançamento do livro “ da viagem das casas”:

“6. sobrados, tectos, saias e desafios

como os conheço… a estes guardas fiscais da fronteira herdados da ditadura, brutos na cama porcos à mesa em copos de tinto sempre a postos e secos, como os conheço bem
andam a par como que a medo, azul na parte de cima, mão no bolso ou na anca ou na coxa sobre a arma
vêm ao longe, olham-me em vão (os meus traços não lhe dizem nada), circundam-me circundam circulam como se feras ou cio de cães
como vos sei da cabeça aos pés todos empinados em casa os filhos brutinhos as filhas freirinhas no vosso pavor de algum como vocês se lhes chegar para genro, filhas de porcelana nem chegam a ser meninas
como vos sei vos abomino e vos domino sem sequer vos tocar
muito empinados nas frustrações de ter lá em casa uma esposa gorducha e despenteada, que se há-de fazer, um homem precisa de ter uma mãe até morrer… como poderia viver com chão janelas sujos a roupa suja e amarrotada, quem lhe faria a comida a cama os filhos os mimos e os caldos e chás dos resfriados, quem, enfim, quem o cuidaria? acobardados na tranquilidade do lar de onde então fazem, descansados, as saidinhas rápidas, tudo sob controle que não sou parvo!
chego a duvidar se são homens ou cães bem treinados cães de guarda cães de cio cães herdeiros da ditadura, sim, cães de cio num inverno eterno nunca domado
cofias o bigode que te enquadra, ceifas a paciência pelos bolsos de mãos no fundo a remexer a mexer a meter-me nojo ou apenas dó da tua miséria de só seres homem de calças baixas à mão mas com peúgas, como lembra o Jorge de Sena”

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o vídeo