somos a afirmação


 

 

fabricamos o tempo

o nosso tempo

com a música dos gestos

suspensos

no exacto instante em que

vindos do silêncio onde habitavam

nos cercearam as vozes

 

somos ainda o haver amanhã

um dia de sol aberto a todos

não o impossível sonhado

mas o real a que estamos condenados

pelo facto de sermos

 

estamos

ali onde palavra e gesto se confundem

não temos medos nem donos

mais muitos mais

crescemos a cada dia

 

somos a afirmação da recusa

 

joão da calada_arrais da torreira


joão da calada

joão da calada

todas as fotos têm uma história, todas falam para além do que diz a imagem. esta foi, sem dúvida, a foto que mais trabalho e paciência me pediu.

o joão da calada sem boné!!!!!!!!!!!!!

um pescador da velha escola, como o joão, só se descobre perante deus.  para esta foto foi necessária a cumplicidade daqueles que numa tarde de agosto e de nortada, se tinham recolhido na tasca do joão para umas jogatinas de cartas ou dominó e, por brincadeira, conseguiram tirar o boné ao joão. depois, depois foi preciso ser muito rápido, porque a visão foi de segundos. ficaram 2 registos desse momento.

o joão foi, e é ainda, o meu informador, mestre e companheiro na aprendizagem da xávega, na obtenção dos nomes dos homens e  mulheres das companhas que fui registando ao longo dos anos. o joão é meu amigo.

homem do mar e da ria, sei dele o pouco que conta. o joão é pescador e as palavras são sempre as necessárias. as minhas primeiras fotos de barcos de mar foram do barco de mar “óscar miguel”, de que era dono e arrais do joão da calada. tenho em minha casa as miniaturas, feitas pelo ti henrique afonso, dos seus 2 últimos barcos.

como arrais à moda antiga, o joão tinha, e tem, uma tasca onde os pescadores da companha compravam o vinho e se juntavam, para convívio.

a tarefa mais difícil, que ainda espero conseguir levar a cabo. é fazer com que o joão me conte a sua história, pelo pouco que sei dele será uma história muito rica sobre a torreira e a pesca da xávega, na segunda metade do século XX.

(torreira, 2005)

uma criança a sorrir abril


cravos de abril

cravos de abril

 

trazer abril no peito

senti-lo sorrir

senti-lo chorar

a raiva e a alegria

no mesmo abraço

 

basta

um cravo ao peito

um cravo no peito

um cravo apenas

 

olho os peitos

as lapelas

que aos cravos devem

o estarem

e não os vejo não os vejo

 

na mão de uma criança

um cravo sorri

sorriso puro

de puro abril

primavera de um tempo outro

 

sorrio também

tenho uma criança dentro de mim

a sorrir abril

 

não trago novas


cais do chegado, murtosa

 

não trago novas

não as sei

há muito que caminho

tudo se repete

na ilusão

 

não trago novas

os nomes fui-os deixando

sobram alguns rostos

olhares mãos

palavras poucas

 

não trago novas

há muito que caminho

só isso sei

caminhar e perder-me

e é tanto

 

o pescador subirá para a bateira

onde o camarada o aguarda

partirão ambos a fazer a maré

eu

eu ficarei no cais mais um pouco

e regressarei a casa

 

são assim os dias

mesmo aqueles em que

não trago novas

(chegado, murtosa)