ti abílio carteirista


“são todos uns insurrectos, cravo!”

só ele sabia dizer esta frase que passou a ser minha saudação provocatória: “você é um insurrecto, ti abílio!”

se existe a “brejeirice da beira ria” como forma de expressão, era no ti abílio que ela encarnava, na malandrice , no sorriso, na ingenuidade sábia, no ser amigo.

o ano passado falei com ele duas vezes pelo telefone, uma das vezes liguei-lhe eu a dar-lhe os parabéns, como era costume, a outra foi ele que me ligou e me deixou preocupado e triste. o ti abílio tinha vendido o moliceiro “Dos Netos” porque já não se sentia em condições de navegar e ao telefone disse-me mais ou menos isto:

  • que faço eu aqui cravo? vou todos os dias ao bico ver a ria e choro

havia dois moliceiros de velha cepa na murtosa: o ti zé rebeço e o ti abílio carteirista. mas bastava dizer “ti zé” ou “ti abílio” e todos sabíamos, sabemos, quem eram.

ambos morreram

ambos estão vivos, o ti zé e o ti abílio são para sempre

morreu tanta memória com eles, só não pode morrer o dever que temos para com a sua memória: continuar com a tradição dos moliceiros – os verdadeiros, com vela.

o ti abílio morreu ontem dia 10 de janeiro de 2024

(torreira; regata da ria; 2017)

postais da ria (498)


a prenda

meticulosamente
começou a despi-la

os dedos prendendo-se
nas pequenas coisas
desabituados de

uma a uma
as peças
dispostas com esmero
na cadeira mais próxima

até que
o corpo surgiu inteiro
e puro
limpo de disfarces

admirou-lhe a perfeição
contemplou-a absorto
durante alguns segundos

tinha conseguido

depois entregou a boneca à filha
para que lhe vestisse o conjunto novo
que a mãe momentaneamente ausente
lhe tinha oferecido pelo natal

(mais uma maré a cabritar; torreira; 2015)