Dia: Fevereiro 10, 2026
O moliceiro é património de quem o pagou
“a pátria onde Camões morreu de fomee onde todos enchem a barriga de Camões! “
Almada Negreiros
Duas histórias
Era miúdo quando o conheci e enquanto o avô construía um moliceiro ele copiava os moldes e fazia miniaturas e ajudava no que podia. Aos treze anos, como timoneiro de um moliceiro com uma tripulação jovem, quase ganhou a regata da ria. Quando teve idade para começar a trabalhar, foi na ria que fez vida. Quando pôde, junto com o avô construiu o seu moliceiro.
Entre as artes da ria e as campanhas no alto mar foi ganhando a vida, nunca perdendo uma regata de moliceiros. Até que um dia comprou o seu.
Dois jovens, dois torrecos, duas apostas no futuro do moliceiro.
O primeiro, em comentário a uma publicação que fiz no facebook, escreveu:
“Os moliceiros só sao lembrados nos dias de regatas e dois ou três dias depois de cada uma delas.
É pena mas é o que temos
Um abraço a si senhor cravo e muita saúde”
Por essa altura, antes ou depois, o moliceiro foi posto à venda.
O segundo, quando os meios de comunicação noticiaram que “ o Barco Moliceiro é Património da Humanidade”, deitou o moliceiro à ria, içou vela, festejou e divulgou um vídeo em que a alegria era transbordante.
Dois jovens, dois sonhos que não merecem ser enganados e deixados por conta própria, a alimentar o sonho com o suor de cada dia, enquanto nas varandas do poder se enche o peito e os negócios as gavetas.
Não merecem ser enganados, mas apoiados e incentivados, eles e todos os que como eles, seja qual for a idade, amam o moliceiro e a ria aberta – a única onde há moliceiros.
Isto só para citar dois casos, que mais haverá.
“Barco Moliceiro: Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro “
Vem isto a propósito da candidatura apresentada pela CIRA ao Instituto do Património Cultural e mais recentemente à UNESCO, do projecto “Barco Moliceiro: Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro “ e que ficou inscrita no Património Cultural Imaterial Nacional e da Humanidade.
Leia-se bem: “Património Imaterial”. O moliceiro é imaterial? Quem acha que, a partir da aprovação do projecto pela UNESCO, o moliceiro é Património da Humanidade faça a seguinte experiência: dê uma cabeçada na proa do moliceiro e veja se doeu ou a atravessou como se nada fosse. Se doeu, meus amigos, não é imaterial e se não é imaterial não é Património da Humanidade. Simples não é?
No Património Cultural Imaterial, segundo o Instituto do Património Cultural, inscrevem-se “expressões orais de transmissão cultural e das técnicas e saberes tradicionais, e da promoção do registo gráfico, sonoro e audiovisual do Património Cultural sem suporte material”, assim sendo jamais o Barco Moliceiro pode ser inscrito no Património Cultural Imaterial, mas a arte da carpintaria naval que o constrói, essa sim, e foi essa que foi inscrita na UNESCO. Aparecer na designação da candidatura “Barco Moliceiro” é como a cereja no cimo do bolo, pura decoração (aparentemente, mas fico por aqui porque em artigo anterior já disso falei).
O Barco Moliceiro poderia, quando muito, ser inscrito no Património Cultural Material Móvel,e era por aí que deveria ter sido conduzida uma candidatura, se houvesse interesse efectivo em que o Barco Moliceiro fosse Património da Humanidade.
Mas nem tudo são más notícias a “ Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro” é Património da Humanidade, ficou definido o que é um Barco Moliceiro(os barcos que andam nos canais de Aveiro também o são), está preservada a tradição da construção. Haja quem tenha dinheiro para os mandar construir.
Resumindo e concluindo, para quem quiser mandar construir um moliceiro, e usando um ditado popular, “Tudo como dantes, quartel general em Abrantes”. Ou será que, face à aprovação, os Municípios da Beira-Ria vão conceder apoios directos e a fundo perdido, com condições claro, a quem quiser mandar construir um moliceiro? O custo de um Barco Moliceiro rondará de 20.000 euros, completamente aparelhado.
É esta a questão de fundo e da qual pode depender a sobrevivência do Barco Moliceiro, ou somente dos “turisteiros” – depois da candidatura aprovada são “Barcos Moliceiros adaptados para fins turísticos” – que circulam nos canais de Aveiro e geram fluxos financeiros consideráveis.
CIRA e Municípios da Beira-Ria a bola está do vosso lado e com ela o futuro do Barco Moliceiro.
artigo publicado no jornal “Notícias de Aveiro” de 23 de janeiro de 2026
https://www.noticiasdeaveiro.pt/o-moliceiro-e-patrimonio-de-quem-o-pagou/
(regata do s, paio; torreira; 2014)
https://www.noticiasdeaveiro.pt/o-moliceiro-e-patrimonio-de-quem-o-pagou/
