porque hoje morreu o joão josé santos cardoso

há amigos que não vemos
há muito
há amigos que vemos
todos os dias
há amigos que não veremos mais
mas que nunca deixam de ser amigos
abraço joão josé
(torreira; regata do s. paio; 2014)
nota dos dias que correm
ontem morreram quatro pescadores num arrastão à entrada da barra da figueira. problemas de concepção da barra.
ontem um locutor de televisão tentou assassinar o bom nome de um cidadão. problemas de concepção do mundo.
hoje não sei que país é este onde tudo isto pode acontecer e ficar impune.
(torreira; companha do marco; 2014)
de como não devia ser
não sei se te sabes
se sou eu que te não sei
mas é nestes desencontros
que o presente morre
e se assassina o futuro
não me comovem as lágrimas
que não nascem das mãos
escrevo-te pregos e arame
instrumentos cortantes
ferramentas tuas de sangue fazer
o meu tempo é hoje
o teu também o será
mas são dias tão diferentes
(arribar; torreira; companha do marco; 2015)
a palavra que não quero
espero a palavra
por dentro das palavras
o sorriso demora a regressar
o tempo é nublado muito
não te perdoo o deserto
nem a lama que semeaste
a imagem só é a mesma
para os mesmos olhos
espero a palavra
por dentro das palavras
e não a quero
(ria de aveiro; torreira)
meditemos
um coelho corre atrás
de uma cenoura
a cenoura não pode correr
o coelho comeu a cenoura?
não porque apareceu
o dono da leira
onde estava a cenoura
correu com o coelho
e disse-lhe
aqui não comem lambões
houvesse mais donos assim
(torreira; regata do s. paio; 2014)
as mãos do meu país
as mãos do meu país
sangram o pão que comem
andam descaídas desempregadas
cansadas depois de tanto e agora
as mãos do meu país
falam pouco ouvem muito calam
há quem queira matar a memória
das mãos do meu país
as mãos do meu país
no domingo vão sair à rua
quero ouvi-las a dizer o que querem
as mãos do meu país
(torreira; companha do marco; 2015)
haja uma pedra
é tarde para deixar de ser
os rios não voltam à nascente
nem me arrependo de ter nascido
sou o que cada dia descobre
o inesperado vindo do imprevisto
e não o somos todos?
na teia urdida por mãos hábeis
a arte é fazer crer que a vítima é outra
quando a aranha mata os pais
o mundo é cada vez mais dos répteis bífidos
fracos imitadores de animais sangue quente
haja uma pedra
(torreira; regata da bateiras à vela; s. paio; 2012)