os moliceiros têm vela (70)


maldigo os chulos

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

terem os homens
o tamanho dos barcos
unidos na mesma frema

falo da terra e uso
a sua linguagem
palavras inventadas
como tudo o que é
marca de lugar

indescritível o amor
indizível o sentir

olho-os e invejo neles
o serem assim
tão uns dos outros

maldigo os chulos

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

(murtosa; regata do bico; 2008)

postais da ria (70)


somos nós

ahcravo_DSC_4710 bw

o meu país é gente
não uma geografia de sol mar
guardanapo no braço dobrado
mesmo se invisível
servil no serviço

o meu país tem muitos nomes
com título anteposto ou não
desempregados sem abrigo
ordenados em atraso
férias em paraísos longe
casas muitas cavalos bastos

o meu país é de carne e osso
para muitos mais osso que carne
para outros poucos só lombo

o meu país está velho e cansado
ou jovem e emigrado

o meu país são tantos
que dizê-lo numa só palavra
é não saber o que é

o meu país somos nós

ahcravo_DSC_4710

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (68)


do sonho

a beleza do chegar

a beleza do chegar

espero dos dias
o serem um a um
o caminho para

desconheço quando
onde porquê

parte-se sempre
chega-se por vezes

abro a porta e deixo
o vento entrar

sou o que ficou
e aprendeu a sonhar

o pintar da ria

o pintar da ria

(murtosa; regata do bico; 2009)

os moliceiros têm vela (67)


do resistir

o ti abílio é timoneiro

o ti abílio é timoneiro

espectador de mim
desreconheço-me

haver um corpo
é haver eu
cada vez menos

são a descer os dias
naufrago neles
uma agonia sabida
não aceite

resisto

um dizer da murtosa: "a viola está nas mãos do zé ruivo"

um dizer da murtosa: “a viola está nas mãos do zé ruivo”

(ria de aveiro; regata da ria; 2013)

ao leme o ti abílio

os moliceiros têm vela (66)


da terra e das gentes

nem para mortalha, que tal não merecem

nem para mortalha, que tal não merecem

amortalhados serão os sonhos
na brancura de nada mais haver
que a memória

falarão dos dias havidos como se
tivesse de ser assim destino
fado português

ficam vozes perdidas no azul
aves de asas cortadas
um canto triste

tudo o que foi não será mais
não haver gente nesta terra
é ter ela o tamanho do seu
cemitério

que não descansem em paz

toda a beleza e é só pano

toda a beleza e é só pano

(torreira; regata da ria; 2014)

os moliceiros têm vela (64)


do social

a espera

a espera

caminham silenciosos
sensíveis que são ao ruído
dos primeiros passos

aparecem sempre sobre o tarde
dizem de sua justiça
o não dever ser assim como é

arriscam pouco cautelosos
no segundo lugar
da segunda fila a sua cadeira

são a sombra que bebe do sol
o terem voz breve avinagrada

gosto deles como de
certos animais

longe

inventar os  dias

inventar os dias

(murtosa; regata do bico; 2012)

o meu amigo joão magina


o meu amigo joão magina

do pai o  o nome também

do pai o o nome também

nasce-se na ria
como se em casa
cresce-se numa bateira
como se na rua

a vela por paixão
a ria por estrada
as redes as cabritas
as velas e as regatas

por sobre as águas
amigos tenho
de idades várias
gerações muitas

pais tios avós
todos
mas todos
com a ria no sangue

e o futuro incerto

da família a alegria

da família a alegria

(torreira; marina dos pescadores)