(torreira; companha do marco; 2010)
no vulgar descrever das coisas
cai a noite
uma guitarra celebra paredes
enquanto na lama da ria
uma mulher morde a sobrevivência
na apanha de amêijoas onde já ninguém
a miséria mais dura
convive lado a lado com a beleza da música
criando uma atmosfera de irrealidade insuportável
no vulgar descrever das coisas
cai a noite
quisera saber como acolhê-la
não te peço que entendas
sequer que gostes
daquilo que escrevo
como
se nem eu
por vezes?
sinto apenas
por isso escrevo
tenho de escrever
porquê?
porque tenho
não me questiones
sente apenas
ou não sintas
que sei eu de ti?
as palavras existem
para além de mim
sou nelas
um outro e o mesmo
não peço que me entendam
não peço nada
limito-me a ser