cai a noite


 

no vulgar descrever das coisas

cai a noite

 

uma guitarra celebra paredes

enquanto na lama da ria

uma mulher morde a sobrevivência

na apanha de amêijoas onde já ninguém

 

a miséria mais dura

convive lado a lado com a beleza da música

criando uma atmosfera de irrealidade insuportável

 

no vulgar descrever das coisas

cai a noite

quisera saber como acolhê-la

limito-me a ser


 

não te peço que entendas

sequer que gostes

daquilo que escrevo

 

como

se nem eu

por vezes?

 

sinto apenas

por isso escrevo

tenho de escrever

porquê?

porque tenho

 

não me questiones

sente apenas

ou não sintas

que sei eu de ti?

 

as palavras existem

para além de mim

sou nelas

um outro e o mesmo

 

não peço que me entendam

não peço nada

limito-me a ser