não inventes o poema ele está aí anda pelas ruas desesperado sem abrigo com fome em busca de emprego a idade do aquário e tu peixe borbulhando palavras gastas cansadas de tão não é deste tempo querem-se palavras deste estar aqui agora quando o lado negro da luz é mais visível tresanda
fotografias
o lado negro da luz (1)
recuso cantar o desejo
sublimado em palavras
no inventar de um corpo
sonho a percorrer
não é este o tempo de
quando tudo escasseia
até o pão da palavra
é ázimo
as ruas estão cheias
de bocas vazias
e tu cantas o corpo
o corpo que, sei lá,
não sabes se terias
trago as pedras da calçada
para o teclado
atiro com elas ao monitor
onde um homem se diz ser de raça
sem que se saiba de que raça é
o raça do homem
que muitas somos
nenhuma a dele porém
o lado negro da luz
é cada vez mais visível:
cortante
negro tempo este
escrevo agora os dias
em tons negros
amargas palavras
sabem-me a estes tempos
onde tudo se confunde
com não ser
possível
uma mulher escava na lama
a sobrevivência de mais um dia
algures
sorridentes
lama na boca farta
banqueteiam-se os senhores
desta terra
cospem
em horas nobres
emissões encomendadas
todo o tempo
é preciso
e tu?
de oiro as palavras
te levaram
hoje negras
desditas
escreve sobre a água
a limpidez das ideias
lava-as
a lama cobre o fundo
da ria
assim também
vais descobrindo
o para além das palavras
que te disseram
poisada nas águas mansas
da ria
uma bateira acorda
e tu?
(ria de aveiro; torreira; marina dos pescadores)
comer do mar
ti antónio neto
cabrita baixa ou dança da ria
na placidez das águas
caminham
arrastam mais que o corpo
o peso do pão
cerram os dentes
apertam os punhos
sofrem
muito
porém
dançam
dizes tu que vês
e não entendes
do fundo da ria
vêm os bivalves
do fundo das gentes
forças desconhecidas já
é tempo de safar o ano
dirás que dançam
dir-te-ei que esta é outra
forma de sobreviver
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sobre este tema foi elaborado o seguinte projecto:
– uma descrição da arte: aparelho e modo de proceder
– um fotofilme genérico
– 6 documentários de pormenor
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descritivo:
a arte da cabrita baixa é utilizada para a apanha de bivalves (neste caso amêijoa japónica) de modo apeado. nela participam homens, mulheres e adolescentes.
a apanha faz-se na vazante, logo que haja calado para trabalhar, até que o mesmo se perca, já na enchente.
o aparelho é constituído por:
– haste: em eucalipto de cerca de 2 metros
– cabrita: semi-circunferência em ferro, em média com 30 dentes de 6 cm
– redenho: com malha de 35mm e comprimento variável, de 1m a 1,5m
– bóia: presa no topo do redenho
– tirante: normalmente em rede de nylon grossa, ata à cintura e prende na base da haste, é nele que grande parte do esforço assenta.
– peso: cilindro de aço ou ferro, de 5kg a 10 kg, fixado na base da haste, junto à cabrita
(peso total do aparelho: 10 a 15 kg)
acessório
vara de apalpar: com altura variável (normalmente um pouco mais de 2 metros), serve para o pescador ir vendo altura da água e comparar com a sua, ficando assim a saber, no caso de decidir iniciar a faina “por onde lhe irá dar a água”.
o cabritar:
a cabrita é atirada à ria e com o peso que tem enterra-se no fundo, depois é arrastada com movimentos de cintura enquanto os braços a mantêm o mais fundo possível.
podemos distinguir os seguintes momentos na faina:
– arrastar
– ver e lavar o redenho na ria
– levar a cabrita até à bateira, se tiver apanhado o suficiente
– deitar a cabrita na bateira, com o redenho na água
– fazer a última lavagem de limpeza na ria
– descarregar o redenho na bateira
é uma arte muito dura e que provoca problemas nos músculos dos braços – no cotovelo formam-se bolas de músculo,
muito dolorosas.
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fotofilme: cabrita baixa, torreira 2012
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documentário 1: vara de apalpar, cabritar
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documentário 2: cabritar e cirandar a bordo
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documentário 3: lavar e descarregar o redenho no barco
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documentário 4: o tirante
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documentário 5: as mulheres
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documentário 6: a dança do cabritar












