sufocar o terror


 

terra de gente até quando?

 

anos muitos serão noventa

inocência pureza

olham-me para além de

mãos céleres nas résteas

um povo uma história um desejo

 

o país que sonhei para ti

não é este

muito menos o que te querem

ofertar

insónia fome dor

 

beijar-te os olhos

pedir desculpa

se não for capaz de resistir

tu mereces tudo o que te

querem retirar

e é tão pouco o que te tens

 

os modelos não têm povo dentro

têm fórmulas concebidas por gente

que desconheces

criadoras de mundos outros

não aquele

que sonhei para ti

 

não é este o país

que te queria ofertar

nem é este o país

que tu gostarias de deixar

 

roubados somos

espoliados de nós

resta-nos ser a réstea

a sufocar o terror

 

 

 

 

 

 

 

ah! raiva


 

 

turvas águas estas

em que estranhos peixes

de pasta pendurada

na barbatana direita

fazem soturnas viagens

por estreitos corredores

sombrios

 

luras farejam e não caçam

portas escancaradas

relvas macias

os esperam

sequiosos de serem mais

que do dono a voz

 

ah! raiva de não haver

caçadores e tiros certeiros

por aí

 

(o lado negro da luz

é trágico)

 

marina pescadores, torreira

amo


 

apanha de ameijoa japónica na torreira

 

amo

o meu amor não é porém

explicitado em carícias ou volúpias

acolhidas no seio de palavras

metáforas ou onomatopeias

ansiedades frustrações e quejandos

sentimentos

 

numa linha apenas

encontrar as palavras certas

afiadas prontas a cortar rasgar

desentupir a cegueira de cinzentas

figuras gaspáricas e coélhicas

 

monstros de spielberg

provocatoriamente depositados

em país longínquo dele e tão nosso

para nos impingirem histórias

do maléfico autor fmi/merkel

parceria infalível em qualquer filme de terror

 

amo

a limpidez líquida do suor

que ganhou o pão

assim as minhas palavras

 

o ser perfeito


em verdade

em verdade te digo:

é tudo mentira

e é preciso muita lata

saberás de quem falo

que todos falam dessa gente

 

em verdade

em verdade te digo:

barrigas cheias

belos carros

grandes arrotos

chorudos ordenados

gandas bacanais

 

um ar de superioridade

bem cultivado

gravata a condizer

com o perímetro do pescoço

(o que até dá jeito)

 

pensam-se em roma

e gaspar o ser perfeito

enorme!


 

(isto não é um poema)

 

 

as palavras

são agora

ferramentas de matemática

apreenderam as quatro operações

 

aplica-as ao teu vencimento bruto mensal

os multiplicadores

encontra-los na proposta de orçamento

e na folha onde se espelha

a transformação em euros

do teu esforço

 

com eles faz um simples

exercício de cálculo:

determina o quanto vais receber

mensalmente em 2013

 

isto não é um poema

agradável

o teu achado

também não

 

é por isso

esta raiva

este ter de te dizer

 

o lado escuro da luz

é ávido

enorme!

 

é duro