somos
os que não calam
não se curvam
muitos mais que
o silêncio
a sombra
o desmando
o sol
é destino de
aí iremos
mesmo se sem asas
voaremos
mais alto que
o lado negro da luz
fenecerá
anos muitos serão noventa
inocência pureza
olham-me para além de
mãos céleres nas résteas
um povo uma história um desejo
o país que sonhei para ti
não é este
muito menos o que te querem
ofertar
insónia fome dor
beijar-te os olhos
pedir desculpa
se não for capaz de resistir
tu mereces tudo o que te
querem retirar
e é tão pouco o que te tens
os modelos não têm povo dentro
têm fórmulas concebidas por gente
que desconheces
criadoras de mundos outros
não aquele
que sonhei para ti
não é este o país
que te queria ofertar
nem é este o país
que tu gostarias de deixar
roubados somos
espoliados de nós
resta-nos ser a réstea
a sufocar o terror
turvas águas estas
em que estranhos peixes
de pasta pendurada
na barbatana direita
fazem soturnas viagens
por estreitos corredores
sombrios
luras farejam e não caçam
portas escancaradas
relvas macias
os esperam
sequiosos de serem mais
que do dono a voz
ah! raiva de não haver
caçadores e tiros certeiros
por aí
(o lado negro da luz
é trágico)
amo
o meu amor não é porém
explicitado em carícias ou volúpias
acolhidas no seio de palavras
metáforas ou onomatopeias
ansiedades frustrações e quejandos
sentimentos
numa linha apenas
encontrar as palavras certas
afiadas prontas a cortar rasgar
desentupir a cegueira de cinzentas
figuras gaspáricas e coélhicas
monstros de spielberg
provocatoriamente depositados
em país longínquo dele e tão nosso
para nos impingirem histórias
do maléfico autor fmi/merkel
parceria infalível em qualquer filme de terror
amo
a limpidez líquida do suor
que ganhou o pão
assim as minhas palavras
em verdade
em verdade te digo:
é tudo mentira
e é preciso muita lata
saberás de quem falo
que todos falam dessa gente
em verdade
em verdade te digo:
barrigas cheias
belos carros
grandes arrotos
chorudos ordenados
gandas bacanais
um ar de superioridade
bem cultivado
gravata a condizer
com o perímetro do pescoço
(o que até dá jeito)
pensam-se em roma
e gaspar o ser perfeito
(isto não é um poema)
as palavras
são agora
ferramentas de matemática
apreenderam as quatro operações
aplica-as ao teu vencimento bruto mensal
os multiplicadores
encontra-los na proposta de orçamento
e na folha onde se espelha
a transformação em euros
do teu esforço
com eles faz um simples
exercício de cálculo:
determina o quanto vais receber
mensalmente em 2013
isto não é um poema
agradável
o teu achado
também não
é por isso
esta raiva
este ter de te dizer
o lado escuro da luz
é ávido
enorme!