o chamado da xávega


henrique bastos

 
uma das características das companhas de xávega, na torreira, é a participação da juventude na faina.
 
começam miúdos, “canalha” ainda, como se diz na praia, e depois continuam nos períodos das férias escolares. alguns, mesmo se arranjam trabalho noutra actividade que não a pesca, é a ela que retornam em período de férias laborais.
 
o chamado da xávega e da ria são muito fortes. do mar para a ria e em sentido inverso, a pesca está no sangue desta comunidade.
 
(torreira, companha do murta, 2007)

iluminar o sonho


o mondego livre em formoselha

apetece-me nascer rio

abrir leitos rasgar margens

destruir a

desilusão deste ser aqui

ainda assim

 

apetece-me nascer rio

levar na corrente pedras rochas calhaus

desnudar raízes

arrancar árvores velhas podres de poderes

asmáticos

 

apetece-me nascer rio

limpar terras de vermes cobertas

rastejantes seres erectos

escamosas barrigudas mentes

pesporrenta gente

sabuja

 

hoje

apetece-me nascer rio

há dias em que só a água

ilumina o sonho

recordo


reflectindo

 

sentado no banco
da memória
recordo

o brilho nos olhos
as caravelas velas pandas
das navegações sem retorno imaginado
o aroma das anémonas
sem terra à vista

a música a desprender-se
das coisas
sem pauta nem maestro nem instrumentos
a música de dentro
em clave de sol e sonho

braços por dentro de braços
e mais braços ainda
abraços tantos a abraçar

recordo

(ria de aveiro; canal de ovar; torreira; marina dos pescadores)

é urgente


o pescador filósofo

ando por aí
no inventar de caminhos
encontros e desencontros
fabricando sonhos
nas noites diurnas

a acender fogos
no seio das rochas mais frias
para que nasçam rios cheios
de olhos abertos

a plantar árvores
em cima do mar
ver crescerem barcos
onde mais que homens são
os que lá dentro vão

na minha rede só letras
plantadas nos regos abertos pela enxada
desta cabeça imparável

acender lume nas pedras
abrir olhos nos rios

é urgente

(torreira; companha do marco; 2011)

xávega_o aparelhar


o saco

 
barco no mar, barco em terra, trabalho sempre.
 
neste registo podem-se ver as redes sobre a  “zorra” (espécie de maca de madeira, constituída por tábuas pregradas sobre dois rolos atravessados na face inferior), para não se encherem de areia, enquanto se começa a aparelhar o barco.
 
de notar que, neste caso, se começa pelo saco. o falecido arrais zé murta, carrega a extremidade do saco, que depois contornará a bica da ré para ficar abraçado nela.
 
(torreira, companha do murta, 2007)
 

xávega_do arribar (5)


agostinho tabalhito (canhoto)

 
ainda o barco vai de arrasto pelas areia e já começa uma outra faina, a do escoar a água que entrou no barco e areia que ficou depositada no fundo, deixada cair por calas e rede.
 
o agostinho trabalhito (canhoto) empunha um escoadouro de metal, mas que normalmente é de madeira ou, até, improvisado cortando garrafas de plástico de 5 cinco litros ou mais.
 
a este utensílio também se dá o nome “vertedouro” nas artes da ria.
 
(torreira; companha do murta; 2007)