ainda


o meu povo
 
as palavras
saem-me amargas
como amargos são estes dias
que me emprestaram

como cantar o amor
a beleza as árvores os rios
e as flores
num tempo avinagrado áspero
de desilusões

não sei ser só
nunca soube

estendo os braços
num abraço de palavras
sinto nos ossos que
este é o meu povo
mas não é um povo que seja seu
ainda

xávega_do arribar (4)


olá sam paio_arribar

 
neste registo vê-se bem o falecido arrais zé murta, na bica da ré a segurar a cala “mão de barca” – corda que fecha o cerco e vem com o barco – laçada na bica da ré.
 
é ela que faz o fixe do barco e é através do deixar correr, ou prender, que o arrais vai deixando o barco aproximar-se de terra ou, como dizem os surfistas, “apanhar a onda” que o trará em segurança até terra.
 
por vezes, muitas vezes, são necessárias várias ondas para o conseguir. o arrais é então o verdadeiro mestre da “arte de bem arribar com qualquer mar”
 
(torreira; companha do murta; 2007)

xávega_o arribar (3)


a espera
o zé caravela e a marlene murta esperam, de ganchos na mão, o arribar do barco de mar que, pela postura e o olhar de ambos, estará para pouco.
 
este registo é o reconhecimento da marlene como mulher da torreira, sem quaisquer problemas de assumir tarefas que normalmente só aos homens cabem.
 
(torreira; companha do murta; 2007)

o instante


e, no entanto

 
de bolor
estes dias anoitecidos
bafientos
 
e
no entanto
há ainda o voo
não do moscardo
mas do homem
no
exacto instante
em que
poisado
em tábua frágil
se ergue sobre
o mar
 
nada existe
então
senão
o instante
o breve instante
suspenso do tempo
sem chão
aparente
 
em que tudo é
sem nada ser
 
o vento corre sobre as ondas
e os homens

te


nós

 

despires-me-te
magia de saber
onde o corpo é

querer dizer-te
e não saber o quê
porque silenciada a voz
no sentir intenso de

caminhas por nós
caminhamos somos
erguem-se aquietadas
flores em botão
ansiosas por

bebe-mo-nos
a sede
e ficamos em silêncio
enquanto os corpos
cantam a música da vida

despires-te-me
te

vem empurrar o sol


ainda há luz

 

anda

vem empurrar o sol

 

como são frios estes dias

gela-se por dentro

como se devagar fossemos

morrendo

e vamos, sabemo-lo,

mas podia ser de outro modo

 

como são pesados estes tempos

que tempos são estes

que não os queremos para ninguém?

 

as mãos

sonhos por dentro da concha

a aquecer um sol longe

 

rente à areia um vento ácido

tudo leva

sequer as gaivotas ficaram

casulos de penas com pernas

 

há um sonho de criança

poisado nestes dias

um luto na voz

 

porém

se empurrarmos o sol

as nuvens quebram-se ao peso da luz

 

fui de novo


de novo

escrevo o tempo
onde me inscrevo
gravadas na pedra dos dias
as palavras

inscrevo-me
em lado nenhum
não sigo qualquer escola
que não a do coração
a saltar-me para as palavras

estou
definitivamente estou
por mais incómodo
estou

não me inscrevam
em movimentos
inscrevam-me, isso sim,
no movimento
pois estou vivo
em todos os sentidos

agora mesmo
escrevi e fui de novo

recuso


  

a minha voz é vento

o meu olhar é luz

semeio sem saber se colho

 

recuso a caverna

onde vivos enterrados

recuso a cama

de cartão com gente dentro

recuso a mão estendida

na sede uma moeda

 

recuso o silêncio

espantado de não haver bocas

para tantas palavras retidas

recuso olhos sôfregos

nas montras onde só pão

 

recuso a desilusão amarga

consentida do ter de ser

recuso os sorrisos bolorentos

da caridadezinha

a distribuir o que a mais

 

recuso

porque quero diverso

este estar aqui

tão efémero e tão sofrido

para tantos