sob a pedra
rolou o grão
e se fez farinha
para ser pão
foram-se os homens
que não a pedra
virgens ficaram
os campos do grão
a um canto a pedra
já não canta
lamento surdo
preso ao chão
(s. pedro do sul;serra da gralheira; macieira)
não me lembro do tempo
em que não fazia anos
sequer dos primeiros que fiz
era criança e bebia os dias
ignorava que somando-os
o resultado era: ano
não sei quando comecei
a fazer anos
continuo a não me lembrar
um ano houve porém em que devo ter
começado
desde então continuei o que não soube
e pararei sem saber, ainda, quando
dois anos
quantos dias são?
sabê-lo-ás quando um dia
no banco de uma qualquer escola
te disserem da soma dos dias
e um sorriso de seres gente
nos lábios
agora sorris somente
choras, fazes birras,
aprendes as primeira palavras
as imitações, as brincadeiras
cantas
és feliz sem o saber
e nisso reside
a verdadeira felicidade
dois anos
há quantos anos eu tive dois anos
eu sei
só não sei como foi
esse dia
e sou feliz na mesma
porque meus pais
nesse dia o foram
como eu, avô, o sou hoje
só queria dar-te um beijo
mas um dia, quando maior fores,
ler-te-ão estas palavras
e, quem sabe, também tu
não te lembrarás da festa
do dia em que fizeste dois anos
gorduroso o tempo
pega-se-me às mãos
não
não te invento nome
nem corpo, nem ser
deixo-te estar assim
no limbo da imaginação
sossegadamente desassossegando-me
as palavras
não serão nada
onde tu fores
por isso
para quê gastá-las na invenção
de um tu?
estamos apenas
e nisso somos tanto
que se fôssemos de facto
o que seríamos?
esfrego as mãos na areia
onde nascem conchas e seixos
e aí
busco o sol
enquanto te espero
os dias
fazem-se de dias
só isso
quando o mar é fêmea
enche-se o saco
de carapau
enchem-se os homens
de esperança
quantas vezes a morrer
breve na lota
onde os compradores
entre cafés e cigarros
aguardam o fruto do suor
para o beberem em copos de bom vinho
também no mar
há quem trabalhe e ganhe pouco
sendo de poucos
a riqueza que o mar dá
um saco em leque
com que se abanam os revendedores
isso é
(praia de mira; companha do fatoco)
foi tempo em que os bois. agora são os tractores que trazem e levam o barco pela areia fora.
quando o barco está muito longe do local ideal para sair e os tractores não são suficientemente fortes, são necessários dois para o arrastarem pela areia, como mostra este registo.
no tempo dos bois o barco era sempre arrastado sobre roletes – cilindros de madeira – o que tornava mais fácil o deslizar e menos pesado trabalho das juntas. hoje em dia, os roletes continuam a existir mas são frequentemente utilizados somente para poisar o barco, quando o são.
o arrastar directo do fundo do barco sobre a areia, provoca um desgaste mais rápido deste e a necessidade de o substituir com mais frequência.
nem tudo são vantagens, cada processo tem sempre duas faces.
(torreira, 2007)
pelo chão gravetos secos, comidos pelo sol
dizem o verde que houve. as rochas nuas
brilham a sede. o corpo busca na água a vida.
as moscas antecipam a putrefacção. o calor
esmaga no horizonte o azul. tudo é límpido
e simultaneamente vazio de sentido.
então digo: a morte circula nas veias um
sangue coagulado.
(memória de um tempo longe)