fragmentos de tempo


antes de

 

ainda não ouvi

a voz da sombra

clamando silêncio

 

ainda não vi

a luz dos cegos

na ponta dos dedos

nas asas das árvores

um pássaro ferido

voar para o céu

a terra escorrer sangue

de tão ferida

 

ainda não vi

o coração da pedra

sorrir à criança triste

 

tudo isto porém sinto

como a areia a onda

antes de

balanço 60


eu ao colo da minha avó benedita

 

há quem nasça continente

eu nasci arquipélago

 

artes e ofícios muitos

de tudo um pouco

em tudo quase nada

o mesmo

agarrar pontas e atá-las

depois mais um nó

novas pontas sempre

em busca de outro nó

a desfazer também

 

sol e mar

inquietações de barco ancorado

angústias de infinito

e um infinito de angústias

 

uma praia

onde conchas ouvem peixes

murmúrios de ondas

troncos naufragados

cordas redes fios

vómitos de mar

 

palavras

em busca de um sentido

sentindo que só a busca é

caminho

 

falei-me

que as palavras


tão leve e tão pesado, o tempo

 

que as palavras
te cheguem inteiras
sem pedras por dentro
nem lágrimas de terem sido

sejam o sorriso nas manhãs
em que eu já não esteja
e te falem de mim
do amor, do mar
da alegria que é estar vivo

que as palavras
te cheguem inteiras
como eu sempre

é tarde para


ainda

 

vivo assim

sentado a andar

à deriva neste tempo

a que pertenço e não me é

 

estranho-me de estar

mas estou sem me mudar

sou ainda a continuação

de uma juventude longe e perto

de um sonho por acabar

de um ser erecto

 

vivo assim

entre mim e eu próprio

num diálogo de passados e futuros

que se encontram no ser hoje

a raiva, a desilusão, a amargura

 

vivo assim

assim me queiram

ou não

é tarde para

também o sol


o que queiras ver

construo meticulosamente

o silêncio

 

formiga dos dias

carreio palavras

curvados os ombros de ser

peso

do senti-las assim

tão minhas, tão eu

 

navego em sensações

procuro não naufragar

de tanto

agarro-me a mim

sou-me cada vez mais

 

não me perguntes se

o sol se põe

se nasce

ou se é apenas a lua

é

fui eu que o fiz assim

 

na construção

do silêncio

as palavras

volvem-se em sons

ininteligíveis

 

também o sol

 

(buarcos)

ser só ser


os rios das cores
no lento saborear
deste estar aqui
longe e perto de
ser só ser só

trazer na língua o sal
roubado algures

ter tudo sem nada
querer possuir
e ser feliz
por ser assim

olhar tudo e tudo ser
na alegria plena
de estar vivo e ver

as cores bailam-me
diante dos olhos
são rios que nascem
sem ânsias de foz

sorrio
por entre as nuvens
dos dias
inúteis
no lento saborear
deste aqui estar

(torreira; 2011)

xávega_entre os bois e os tractores


força humana
 
este registo é a memória de um tempo de transição, na xávega da torreira, em que as juntas de bois já não eram utilizadas e os tractores ainda não tinham sido introduzidos.
 
foi um tempo curto, mas em que se trabalhou à moda do início da arte, todo o esforço era humano, à excepção do motor que já se encontrava instalado no barco.
 
(torreira; século XX)