solheira_colher (3)


18 andares já foram

o aparelho da solheira, como já devo ter dito algures, é constituído por um determinado número de redes – andares – unidos entre si, até um máximo de 20 e que se estende por uma centenas largas de metros.

de oito em oito andares é lançada uma bóia para marcar a posição e servir assim de referência a outras bateiras ao mesmo tempo que nos dá o alinhamento coma bóia inicial.

os andares têm a correr no cimo um tralho de bóias e no fundo um tralho de chumbo – este de acordo com os modelos mais modernos é constituído por uma corda por dentro da qual corre o próprio chumbo.

assim a rede assenta no fundo e nela emalham os peixes – chocos, linguados e, por vezes sarguetas – dos quais os dois primeiros são os verdadeiros objectos de captura

(ria de aveiro – algures no canal de ovar -com o joão costeira)

o calinas


 

calinas (há quantos anos?)

olho-te nos olhos
e é como se perguntasse:
que fiz eu ?

aqui
onde a vida começa
com o nascer do sol
o queimar do sal

aqui
envelhece-se mais cedo

nas mãos sulcos rasgados
pelas cordas
que puxam as redes e os barcos

escamas de peixe
salpicam-me o rosto
brincar é escolher sardinha
aguentar a picada do peixe aranha
e não chorar

aqui
cresce-se depressa
a trabalhar o mar

(torreira)

solheira_o largar (2)


escutar o silêncio

lentamente as redes vão deslizando para o interior da ria, em busca de peixe.

o silêncio pode-se ouvir e, como no meio do mar quando o barco da xávega lança o saco, estamos noutro mundo.

os olhos controlam a direcção do barco que deve seguir uma linha paralela à margem e no sentido norte/sul, ou como dizem os pescadores da ria, baixo/cima.

de tempos a tempos um pequeno toque no motor faz com que a bateira retome a direcção certa e não conflitue com as outras redes. é uma relação de solidariedade efectiva a que se encontra estabelecida entre os pescadores.

durante cerca de meia hora a rede desliza e os olhos lavam-se na limpidez da ria, enquanto o cérebro navega noutras terras.

a sensação de plenitude e liberdade é imensa.

assim a ria e suas artes

(ria de aveiro_torreira)

solheira_o largar (I)


a largar com o joão

se há momentos de rara beleza nas artes de pesca da ria, o largar das redes da solheira é o mais fantástico: pelo silêncio; pelo modo como as bateiras se dispõem paralelamente, marcando posição; pelo momento exacto em que, começando a maré a vazar, todas, mas todas, se põem em movimento.

é um desfile lado a lado a toda a largura da ria, tão extenso que é infotografável. só estando dentro da bateira com o pescador nos apercebemos do quanto é extraordinária essa meia hora onde tudo se joga.
fui largar redes com vários pescadores da torreira, o joão costeira foi um deles.

ao longo de vários registos sucessivos, procurei ir falando do como, mas jamais serei capaz de dizer do quanto.

(torreira_algures no meio da ria)

a escolha


a escolha

é tempo agora
de escolher o peixe
separá-lo por tamanho
espécie
valor de mercado

toda a companha
se reúne em torno do estrado
do reboque do tractor

em tempos era na areia
mais tarde em cima de um oleado
hoje é mais frequente assim

depois há que lavar o peixe
colocá-lo nas caixas e levá-lo à lota
ou vendê-lo a algum veraneante
farto da carne urbana

assim se vive do mar
e se dá vida a quem o visita

(torreira_companha do marco)

lá fora a chuva


e eu?

um dia

sabes?

falaram-me da chuva

das poças de água

de molhar os pés

de brincar

 

mas a chuva é fria

os dias são escuros

os meninos à chuva

choram sem saber

porquê

e sequer são salgadas as lágrimas

escorrendo pelas faces

 

transidos os dedos

pedem carícias

de outras mãos mais

quentes

 

deixas-me aquecê-los?

 

foto de sofia carvalho:

http://www.facebook.com/album.php?aid=2065907&id=1340696876

 

o massa e o pedro


 

massa e pedro

 

e já não basta o massa
o pedro veio dar uma mão
e não são dois são três
que o massa
para quem o conhece não é um
são dois
a matemática do olhar
não é a matemática do ser

o carapau deu à costa
é de bom tamanho
urge regressar ao mar
nova colheita
a prometer e a não desleixar

ao massa e ao pedro
as costas rebrilham de sal
suor e escamas
assim se ganha o pão
que sai do mar

(torreira_companha do marco)