onde habita o olhar


quando o real se torna
virtual
e o virtual se torna real
a memória reside algures
já não onde
sequer como
era

apetece-me refazer tudo
e a mim também
para que o ter sido ganhe
em beleza o que perdeu
por já não ser

sou o criador
que abre as mãos
do que não pode guardar
e te encontro algures à minha espera

onde habita o olhar

(regata de moliceiros; bico; 2007)

um dia foi assim


o fim de um sonho

sei do momento a beleza
bebo-a insaciável de tanta
sei-a agora só
sinto-a como se coisa irreal
fugaz sem palavras para

recordo-a sempre que
sei que jamais se repetirá
que vendidos foram os barcos
levados os mastros
cortadas as bicas
não sei se ainda pousam
amputados de si
na ria do faz de conta

um dia foi assim
na ria
o sonho brilhou

(ria de aveiro; torreira; 2010)

somos o que juntos


 

o virar do moliceiro no estaleiro antigo do mestre zé rito

o virar do moliceiro no estaleiro antigo do mestre zé rito

 

 

somos quantos quisermos
não quantos queiram que sejamos
seremos o que merecermos ser
ou o que de nós quiserem
se de nós a razão
se juntos
a força

ergueram o barco enorme
e eram minúsculos
juntaram-se
foram maiores que o barco
ergueram-no

aos homens da ria
aos homens do mar
ser só
só

é coisa estranha
(o virar do moliceiro no antigo estaleiro do mestre zé rito, torreira; 2009)

nada sou


Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é 0-ahcravo_dsc_6187_regata-2011abw-1.jpg

ainda havia um bando de cisnes em 2011, cada vez menor

venho de muito longe
de onde os meus de perdem
na memória de terem sido
por serem diminutos na sua grandeza
homens e mulheres da ria e do mar

venho de muito longe
não estranhes por isso o meu cansaço
o desalento
as velas pandas
sem ventos de sonho
prenhes de memórias apenas

nada sou
que importa de onde venho
trago-te estes momentos
porque

são grandes de mais
só para mim

(regata da ria; torreira; 2011)

agar ou a memória de um moliceiro


 

 o agar nos secos do bico esperava. queimado por ordem de quem poderes tem

o agar nos secos do bico esperava. queimado foi por ordem de quem poderes tem

 

olho ainda o que já não
guardo-o em mim
coisa minha de ter sido

as chamas comeram-lhe
o que o tempo deixara

contarás as imagens
que prémios ganharam
e era ele a personagem central
loucura pensar que por isso
ficaria mais

um bico no bico
de cimento e azulejo
aponta o céu
virado ao mar
virado ao mar

o fim já tinha começado

 

(ria de aveiro; murtosa; bico)

 

zé pedro miranda


 

o paulo agarrrado à escota da vela do moliceiro

o zé pedro a agarrar a escota da vela do moliceiro

 

 

filho do alfredo miranda, a quem devo o manual do curso para arrais da ria e que muito jeito me tem feito, e neto do mestre zé rito – antigo moliceiro e actualmente mestre construtor de bateiras e moliceiros no estaleiro da torreira – o zé pedro é um verdadeiro homem da ria.

atento a toda as obras do avô, tem sempre um reparo a fazer, mas é a velejar e ao leme dos moliceiros que se sente bem.

aos 14 anos de idade, ao leme do moliceiro do ti manel valas, primo do avô, ficou em segundo lugar na regata do s. paio da torreira, de 2013.

é em putos como ele, com a tradição no sangue, a arte nas veias e a cultura que vão adquirindo na escola, que a ria continuará a viver.

 

(torreira; 2013)

lameirense, a memória de um moliceiro


 

 

o lameirense vivo e a vencer a nortada

o lameirense vivo e a vencer a nortada

em 2009 era assim, um barco pujante, o último moliceiro do torrão do lameiro, freguesia do concelho de ovar que confronta a sul com a torreira.

hoje nada mais é que memória, haverá 2 anos que com o casco apodrecido, partiu para aveiro.

 

um a um os moliceiros vão deixando de ser os barcos da ria, para serem os barcos do canal de aveiro.

 

fica a memória de um tempo. nada mais.

 

(regata da ria, 2009)

escuta-te


 

 lentos, os moliceiros aproximam-se, deslumbramento de

                                                                                    lentos, os moliceiros aproximam-se, deslumbramento de

raiva de não poder
prender o tempo
permanecer por dentro
dos instantes em que
o deslumbramento
cresce para mim

escuto de novo o silêncio
a isso te convido também

o que ouves
não é som
é imagem
é música

escuta-te

 

(ria de aveiro; torreira)

vive


são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

 

escuta de novo

o silêncio

a beleza adivinha-se

senta-te dentro de ti

espera

 

deixa que os teus sentidos

se resumam a um só

a visão

vê tudo como se nunca mais

é único

és único

 

nada se repete

e tu

tu estás aqui agora

 

sorri apenas

 

 

(ria de aveiro; torreira)

 

 

lágrimas de crocodilo


regata da ria; 2011

a ilusão de haver tempo
sem vento de dias
sem sopros
sem

a ilusão de ficar mais
para além de
não saber
se

a ilusão de estar de novo
sempre
sem querer saber que um dia
não mais moliceiros
que a memória
de terem havido

a ilusão não
se pendura nos olhos
por saber que nos gabinetes
haverão quadros homenagens sorrisos
emblemas bandeiras frases desfeitas

lágrimas de crocodilo

(torreira; regata da ria; 2011)