que de nós sabemos nós?
pergunto por nós
e já não sei dos nós
que há entre nós
sabendo de tantos nós
que entre nós havia
nó(ve)s fora nada
(torreira; marina dos pescadores)
a vida não é uma parábola
depois de o executarem
disseram que não era culpado
incapaz de se levantar
o executado sorriu
um sorriso de cinzas
ainda hoje quando o vento
sopra do norte
vejo-as voar e cobrir de pó
tudo quanto a sul
afinal estava tudo na bíblia
como é costume
que tudo lá cabe excepto
a vida
que não é uma parábola
(torreira; regata do s. paio; 2014)
calaste-me pedras
não mates a palavra
para continuares vivo
deixa que seja o tempo
a levar-te inteiro
quero-te dizer que dói
assistir à tua morte
sabendo-te vivo
as hienas comem o leão
a noite chega mais cedo
é de restos que se atapetam
os dias que me restam
as pedras esboroam-se
tropeço em montículos de areia
desfeita que foi a memória
calaste-me pedras
(torreira; marina dos pescadores)
para o meu amigo dr. peres
não sei onde está agora
aquilo que do teu corpo
em cinzas tornado foi
recordo as tuas palavras
“então e o meu amigo como vai?”
e eu ia com a tua ajuda
a música a poesia a pintura
um mundo onde habitar
era ter um amigo dentro
cuidavas mais dos outros
que de ti
talvez por isso te descuidaste
e já não és
escrevo só para te dizer
obrigado
obrigado por teres sido
(torreira; regata do s. paio; 2010)
lembro-me agora, meu amigo, que nunca chegámos a comer, juntos, uma caldeirada de enguias
as encomendas, com identificação de morada para remessa, devem ser feitas para o meu endereço de email ahcravo98@yahoo.com
“primeiro de agosto
primeiro de inverno”
(ditado da torreira)
chove em agosto
limpam-se as cores
tudo adquire por momentos
uma beleza lavada
onde os olhos se renovam
chove em agosto
e eu esqueço-me
dos insignificantes
estou vivo e isso me basta
(torreira; marginal da ria; 13/08/2015)