postais da ria (91)


calaste-me pedras

fica a sombra

fica a sombra

não mates a palavra
para continuares vivo
deixa que seja o tempo
a levar-te inteiro

quero-te dizer que dói
assistir à tua morte
sabendo-te vivo

as hienas comem o leão
a noite chega mais cedo
é de restos que se atapetam
os dias que me restam

as pedras esboroam-se
tropeço em montículos de areia
desfeita que foi a memória

calaste-me pedras

é urgente dourar os dias que restam

é urgente dourar os dias que restam

(torreira; marina dos pescadores)

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