os moliceiros têm vela (124)


boa noite

gosto da ria assim, mas a cada ano que passa, parece mais impossível

gosto da ria assim, mas a cada ano que passa, parece mais impossível

no meu peito já voaram
pássaros nuno
não me lembro quando

agora nenhum nidifica
sequer num ramo pousa

sorrio aos dias
aqueço-me numa réstia de sol
sempre que posso
nem sempre quando quero

escrevo-me devagar
nunca sei se

no meu peito já voaram
pássaros nuno
não me lembro quando

boa noite

a beleza da ria e a pobreza dos mandantes

a beleza da ria é a paixão dos moliceiros

(torreira; regata do s. paio; 2012)

lembro aqui o título do primeiro e, para mim melhor, livro de nuno camarneiro: ” No meu peito voam pássaros”. façam o favor de o ler

moliceiros, uma paixão


moliceiros, uma paixão

o grande ti zé rebeço

o grande ti zé rebeço

(o coração tem razões
que a razão desconhece)

quero-te dizer que tens razão
é a paixão que move estes homens
que os faz serem maiores que eles
terem o tamanho do mundo
que sonharam e constroem a cada dia

quero-te dizer que tens razão
mas também que não há razão que explique
a razão de pensares como pensas
de estares onde estás
por isso és a irracionalidade personificada

quero-te dizer que tens razão
mas quero-te dizer que isso não basta
nunca a razão mudou o mundo
só o sonho e a paixão o fizeram
por isso de ti não espero a mudança

quero-te dizer
que o futuro começou ontem
e não me parece que o saibas

sou dos que sonham
e isso pode ser perigoso
aqui

todos os moliceiros são o moliceiro e o ti zé ajuda quem precisa

todos os moliceiros são o moliceiro e o ti zé ajuda quem precisa

(amanhã é dia de regata e, incansável, o ti zé rebeço ajuda a erguer o mastro do s. salvador. todos os moliceiros são o moliceiro

torreira; estaleiro do mestre zé rito; 26 junho, 2015)

os moliceiros têm vela (119)


retrato de quem nele se revir

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serem os altares poucos
pequenos os palcos
para tantos artistas
com asas no peito
sem rosto visível
acrobatas do vazio

como pode ser grande um país
com tanta gente piquena
sabedora de tanto
conhecedora de muito mais
habitantes de janela

estrelas decadentes
em busca de um céu
quem sabe se debaixo
da terra que pisam

vou pela sombra
que estes sóis não são
de confiar

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(torreira; regata do s. paio; 2012)

o moliceiro “Marco Silva”


para o arrais marco silva

e partiu de vela erguida

e partiu de vela erguida

haver no homem o sonho
a força o querer o fazer

o sentir da casa cheia
os amigos os filhos

um barco onde todos
se abraçam se sabem são
voa na ria um barco novo
ao leme um homem que sonhou
soube dar ao sonho a forma de barco
um moliceiro a que emprestou o nome

vogam os dois na ria
e o presente sorri de ainda
haver homens assim por aqui

é possível construir o futuro

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ria de aveiro; torreira; 20 de junho de 2015

o vento era pouco onde a vontade foi muita, mas o “Marco Silva” velejou pela primeira vez

os moliceiros têm vela (118)


eu e o outro somos um

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cada vez sei menos
e o que sabia esqueci

sou a memória ao contrário
cheio de tudo vestido de nada
desaprendi de sorrir ao vento
de tanto o vento me cortar o sorriso

restam-me as mãos e os olhos
este bicho inquieto que sou
rasgar silêncios procurar ser voz
teimoso e incredulamente crédulo
fora do baralho e o jogo corria bem

cada vez sei menos
e o que sabia esqueci

não estranho por isso
que não me entendam
não me oiçam nem me falem
sou de menos para mim
e de mais para muitos
sou o que incomoda por ser

eu e o outro somos um

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(torreira; regata da ria; 2011)

palavras para uma foto de jorge bacelar


talvez uma lágrima, um cisco no sentir por dentro, um cansaço por tanto e depois … nada. talvez uma vida que só é bela na fotografia e, por isso, tão triste o saber da beleza que aos olhos dos outros é este ser aqui, assim. talvez os teus olhos nos meus me mostrem e me façam sentir mais do que o costume. talvez a dor, não sei, talvez o ainda estar por aqui. uma lágrima no canto do olho, a mão que a recolhe e tu….. tu levas contigo o meu olhar, e vão dizer-te: que bela fotografia…. interessante não é?