agostinho
não sei se voltas
por onde andas
disseram-me
mas o mar
não sabe de ti
diz-me todos dias
o teu nome
(torreira; companha do marco; 2013)
boa noite
no meu peito já voaram
pássaros nuno
não me lembro quando
agora nenhum nidifica
sequer num ramo pousa
sorrio aos dias
aqueço-me numa réstia de sol
sempre que posso
nem sempre quando quero
escrevo-me devagar
nunca sei se
no meu peito já voaram
pássaros nuno
não me lembro quando
boa noite
(torreira; regata do s. paio; 2012)
lembro aqui o título do primeiro e, para mim melhor, livro de nuno camarneiro: ” No meu peito voam pássaros”. façam o favor de o ler
moliceiros, uma paixão
(o coração tem razões
que a razão desconhece)
quero-te dizer que tens razão
é a paixão que move estes homens
que os faz serem maiores que eles
terem o tamanho do mundo
que sonharam e constroem a cada dia
quero-te dizer que tens razão
mas também que não há razão que explique
a razão de pensares como pensas
de estares onde estás
por isso és a irracionalidade personificada
quero-te dizer que tens razão
mas quero-te dizer que isso não basta
nunca a razão mudou o mundo
só o sonho e a paixão o fizeram
por isso de ti não espero a mudança
quero-te dizer
que o futuro começou ontem
e não me parece que o saibas
sou dos que sonham
e isso pode ser perigoso
aqui
(amanhã é dia de regata e, incansável, o ti zé rebeço ajuda a erguer o mastro do s. salvador. todos os moliceiros são o moliceiro
torreira; estaleiro do mestre zé rito; 26 junho, 2015)
retrato de quem nele se revir
serem os altares poucos
pequenos os palcos
para tantos artistas
com asas no peito
sem rosto visível
acrobatas do vazio
como pode ser grande um país
com tanta gente piquena
sabedora de tanto
conhecedora de muito mais
habitantes de janela
estrelas decadentes
em busca de um céu
quem sabe se debaixo
da terra que pisam
vou pela sombra
que estes sóis não são
de confiar
(torreira; regata do s. paio; 2012)
para o arrais marco silva
haver no homem o sonho
a força o querer o fazer
o sentir da casa cheia
os amigos os filhos
um barco onde todos
se abraçam se sabem são
voa na ria um barco novo
ao leme um homem que sonhou
soube dar ao sonho a forma de barco
um moliceiro a que emprestou o nome
vogam os dois na ria
e o presente sorri de ainda
haver homens assim por aqui
é possível construir o futuro
ria de aveiro; torreira; 20 de junho de 2015
o vento era pouco onde a vontade foi muita, mas o “Marco Silva” velejou pela primeira vez
eu e o outro somos um
cada vez sei menos
e o que sabia esqueci
sou a memória ao contrário
cheio de tudo vestido de nada
desaprendi de sorrir ao vento
de tanto o vento me cortar o sorriso
restam-me as mãos e os olhos
este bicho inquieto que sou
rasgar silêncios procurar ser voz
teimoso e incredulamente crédulo
fora do baralho e o jogo corria bem
cada vez sei menos
e o que sabia esqueci
não estranho por isso
que não me entendam
não me oiçam nem me falem
sou de menos para mim
e de mais para muitos
sou o que incomoda por ser
eu e o outro somos um
(torreira; regata da ria; 2011)

foto de jorge bacelar
https://www.facebook.com/murtosatube/photos/a.273613466010583.64707.271757059529557/946625618709361/?type=1&theater
talvez uma lágrima, um cisco no sentir por dentro, um cansaço por tanto e depois … nada. talvez uma vida que só é bela na fotografia e, por isso, tão triste o saber da beleza que aos olhos dos outros é este ser aqui, assim. talvez os teus olhos nos meus me mostrem e me façam sentir mais do que o costume. talvez a dor, não sei, talvez o ainda estar por aqui. uma lágrima no canto do olho, a mão que a recolhe e tu….. tu levas contigo o meu olhar, e vão dizer-te: que bela fotografia…. interessante não é?