palavra dada
deste a tua palavra
nunca nada tão valioso
ofereceste
(murtosa; regata do bico; 2012)
escorro água e sal
desfaz-se a pedra em água
corre por entre os dedos areia
as paredes tremem e é de vento
o telhado onde antes casa
digo-te que não mereço
como não merecem aqueles
a quem nada resta senão
o serem como são por não
poderem ser de outro modo
voltaremos um dia e será manhã
até lá esperamos que o sol
se ponha devagar
e seja noite quando for
escrevo-te do exílio de mim
da memória de um tempo outro
que já não existe nem voltará
ao passado o que dele é
o futuro dir-se-á no tempo certo
o vento é de sul
o mar entrou no barco
escorro água e sal
(torreira; companha do marco; 2015)
eu só termino em mim
os primeiros passos
não os últimos
as primeiras palavras
a palavra o nome
o herdado
vi o que vias e procurava
outros olhares
mas era sempre o teu
o olhar recto
sou porque foste e me deste
serei porque assim te vi ser
não pelo que me dizes hoje
queria continuar a ouvir-te
mas eu só termino em mim
(torreira; corrida dos chinchorros; 2014)
vive e sonha
nada é tão certo
como a incerteza
sê tu no instante
em que a ave é barco
e os rios correm serenos
por entre margens largas
escuta o rumor do vento
a beleza dos flamingos
vive e sonha
(ria de aveiro; esteiros do bunheiro)
o
o lixo debaixo do tapete
lê tudo ao contrário
as horas da beleza
não são as únicas
horas da realidade
procura os homens
pergunta-lhes o como
quando e para quê
são eles o teu relógio
procura-os nas horas más
esconderam o lixo
por debaixo do tapete
na ilusão de terem limpo a casa
não sejam os teus olhos
tapete novo em chão gasto
dou-te a carne dos dias
para que sintas na boca o sangue
dos que os habitam
reparte-a
(torreira; cais do guedes; verão, 2015)