crónicas da xávega (96)


escorro água e sal

o vento é de sul e levanta mar

o vento é de sul e levanta mar

desfaz-se a pedra em água
corre por entre os dedos areia
as paredes tremem e é de vento
o telhado onde antes casa

digo-te que não mereço
como não merecem aqueles
a quem nada resta senão
o serem como são por não
poderem ser de outro modo

voltaremos um dia e será manhã
até lá esperamos que o sol
se ponha devagar
e seja noite quando for

escrevo-te do exílio de mim
da memória de um tempo outro
que já não existe nem voltará

ao passado o que dele é
o futuro dir-se-á no tempo certo

o vento é de sul
o mar entrou no barco
escorro água e sal

eu fui ao mar

eu fui ao mar e o mar veio ter comigo

(torreira; companha do marco; 2015)

os moliceiros têm vela (146)


nada mais te resta

como se em bando

como se em bando

despede-te devagar
do sol

sustém os dias com mãos
ambas

colhe os frutos mais maduros
saboreia-os

guarda o paladar da ria
nada mais te resta

lembra-te da ria e da sua beleza

lembra-te da ria e da sua beleza

(torreira; regata do s. paio; 2015)

postais da ria (99)


eu só termino em mim

corrida dos chinchorros, os treinos

corrida dos chinchorros, os treinos

os primeiros passos
não os últimos
as primeiras palavras
a palavra o nome
o herdado

vi o que vias e procurava
outros olhares
mas era sempre o teu
o olhar recto

sou porque foste e me deste
serei porque assim te vi ser
não pelo que me dizes hoje

queria continuar a ouvir-te
mas eu só termino em mim

momentos para meditar

momentos para meditar

(torreira; corrida dos chinchorros; 2014)

os moliceiros têm vela (145)


vive e sonha

o equilíbrio natural da ria

o equilíbrio natural da ria

nada é tão certo
como a incerteza

sê tu no instante
em que a ave é barco
e os rios correm serenos
por entre margens largas

escuta o rumor do vento
a beleza dos flamingos

vive e sonha

o moliceiro "marco silva" desliza por um canal da ria, sob o olhar atento dos flamingos

o moliceiro “marco silva” desliza por um canal da ria, sob o olhar atento dos flamingos

(ria de aveiro; esteiros do bunheiro)

o

crónicas da xávega (94)


fico com os barcos

como se ave fora e voasse

como se ave fora e voasse

quando a faca corta a água
o sangue é incolor
como se o mar chorasse

despeço-me de ti
porque já não és
e eu que fui contigo
sou agora outro

fico com os barcos
reaprendo a navegar

navegar é preciso....

navegar é preciso….

(torreira; barco de mar maria de fátima; 2015)

postais da ria (97)


o lixo debaixo do tapete

não é fácil trabalhar aqui

não é fácil trabalhar aqui

lê tudo ao contrário
as horas da beleza
não são as únicas
horas da realidade

procura os homens
pergunta-lhes o como
quando e para quê
são eles o teu relógio
procura-os nas horas más

esconderam o lixo
por debaixo do tapete
na ilusão de terem limpo a casa
não sejam os teus olhos
tapete novo em chão gasto

dou-te a carne dos dias
para que sintas na boca o sangue
dos que os habitam

reparte-a

o meu amigo aú vai amarrar a bateira

o meu amigo aú vai amarrar a bateira

(torreira; cais do guedes; verão, 2015)