falam-me de ti
não gasto palavras contigo
quando me perguntam por ti
digo
deve estar bem e vivo
caso contrário saberia
(torreira; barco de mar maria de fátima; 2015)
se te apanho
deixaste os portugueses atrás
na fuga precipitada para o abismo
empurrado por uma europa
a que só resta um eu no centro
solidário consigo mesmo
deixaste os portugueses atrás
destruíste lares laços afectos
semeaste desespero fome abandonos
encheste os bolsos de alguns
fazendo deles o país não o povo
não me digas que depois de tantos
atrás deixares esquecidos que foram
menos no esbulhar dos haveres parcos
depois de tanto teres feito para tão poucos
a troco de trinta dinheiros embolsados
vigarices muitas falta de princípios basta
não me digas
portugal à frente
que à frente irás tu
tenha o povo memória
saibam as gentes o que querem
portugal à frente
e eu atrás de ti
se te apanho
(torreira; companha do marco; 2013)
a de alfinete
hoje quero dizer-te
um segredo
não existo
poucos o sabem
mas eu não existo
sou uma assombração
no dizer dos antigos
vim para incomodar
não para existir
por isso o meu nome
começa por a
como alfinete
vê lá não te piques
(murtosa; regata do bico: 2007)
o mais é vento
“há 45 anos que não fazia um barco”
(mestre firmino tavares)
ao fazer-se o barco
refez-se o homem
construiu-se um tempo outro
de outros saberes e fazeres
cresceu nos olhos uma luz diversa
o brilho adormecido há 45 anos
vi neles barcos serem de novo filhos
paridos com o amor e a arte de mãos hábeis
fazem-se os homens como os caminhos
o barco navega agora
pulsam dentro dele dois corações
oiço-os bater sempre que a vela se enfuna
a ria sorri um sorriso largo de espuma
e eu fico na margem a reaprender o sonho
o mais é vento que passa
(ria de aveiro; regata da ria; 2015)
NOTA: na galeria municipal, na torreira, está patente, até dia 2 de agosto, a exposição “a ria no coração”, patrocinada pela câmara municipal da murtosa, e que documenta fotograficamente a construção do moliceiro “marco silva”. as fotografias são da autoria de abel cunha, antónio lousada e rui cruz.
para o jorge bacelar
mais do que horas
foram os momentos
os abraços por dentro
os sorrisos o sermos
descobrir o vento
por dentro das imagens
fazê-las voar para outros céus
a amizade a partilha
há homens que trazem
o mar espelhado nos olhos
e o ofertam para longas navegações
o barco está preparado para largar
esperemos que seja um bom lanço
(torreira; barco de mar maria de fátima)