palavras muito pesadas
hoje as redes
da companha do marco
apanharam
uma corvina de 31 quilos
(torreira; companha do marco; 16 de julho, 2015)
vou dormir
deixem-me dormir
seja qual for o motivo não
me acordem
estou cansado de viver
olhos abertos dia e noite
cansado de ser só olhos
quero sonhar
sonhar o que podia ter sido
recordar apenas o que mereceu
ser sonhado
e nunca passou do sonho
deixem-me dormir
quero as janelas abertas
muita luz pelo quarto
senti-la dentro de mim
ser eu por momentos
deixem-me sonhar de olhos fechados
ter de novo a ingenuidade da criança
para quem o mundo é um brinquedo
e todos são companheiros de brincadeira
deixem-me dormir
não ser por alguns momentos
esta coisa ambulante
um corpo agoniado de tantos dias
deixem-me sonhar
nem que seja só hoje
o sonho desconhece o tempo
porque é todo o tempo
vou dormir
(murtosa; regata do bico; 2009)
continuo a caminhar
admiro os que a palavra vestem
como se coisa de usar fosse
consoante o momento o local
a audiência
admitem a inexistência da memória
julgando-se senhores do saber
do dizer e fazer constar
curvam-se perante eles os que
pretendendo vir a ser
mais não serão
que o terem sido úteis quando
vivem todos de ilusões
sorrio e continuo a caminhar
(torreira; companha do marco; 2012)