não escrevo mais
quando tempo havia
onde quer que estivesse
escrevia
quando morresse na lápide
palavras poucas
queria
não escrevo mais
desejo expresso e dado a saber
continuou a escrever
até ao dia
(murtosa; regata do bico; 2009)
continuo a caminhar
admiro os que a palavra vestem
como se coisa de usar fosse
consoante o momento o local
a audiência
admitem a inexistência da memória
julgando-se senhores do saber
do dizer e fazer constar
curvam-se perante eles os que
pretendendo vir a ser
mais não serão
que o terem sido úteis quando
vivem todos de ilusões
sorrio e continuo a caminhar
(torreira; companha do marco; 2012)
boa noite
no meu peito já voaram
pássaros nuno
não me lembro quando
agora nenhum nidifica
sequer num ramo pousa
sorrio aos dias
aqueço-me numa réstia de sol
sempre que posso
nem sempre quando quero
escrevo-me devagar
nunca sei se
no meu peito já voaram
pássaros nuno
não me lembro quando
boa noite
(torreira; regata do s. paio; 2012)
lembro aqui o título do primeiro e, para mim melhor, livro de nuno camarneiro: ” No meu peito voam pássaros”. façam o favor de o ler
moliceiros, uma paixão
(o coração tem razões
que a razão desconhece)
quero-te dizer que tens razão
é a paixão que move estes homens
que os faz serem maiores que eles
terem o tamanho do mundo
que sonharam e constroem a cada dia
quero-te dizer que tens razão
mas também que não há razão que explique
a razão de pensares como pensas
de estares onde estás
por isso és a irracionalidade personificada
quero-te dizer que tens razão
mas quero-te dizer que isso não basta
nunca a razão mudou o mundo
só o sonho e a paixão o fizeram
por isso de ti não espero a mudança
quero-te dizer
que o futuro começou ontem
e não me parece que o saibas
sou dos que sonham
e isso pode ser perigoso
aqui
(amanhã é dia de regata e, incansável, o ti zé rebeço ajuda a erguer o mastro do s. salvador. todos os moliceiros são o moliceiro
torreira; estaleiro do mestre zé rito; 26 junho, 2015)