os moliceiros têm vela (130)


o mais é vento

o

o “marco silva” a terminar a regata em primeiro lugar

“há 45 anos que não fazia um barco”

(mestre firmino tavares)

ao fazer-se o barco
refez-se o homem

construiu-se um tempo outro
de outros saberes e fazeres
cresceu nos olhos uma luz diversa
o brilho adormecido há 45 anos
vi neles barcos serem de novo filhos
paridos com o amor e a arte de mãos hábeis

fazem-se os homens como os caminhos

o barco navega agora
pulsam dentro dele dois corações
oiço-os bater sempre que a vela se enfuna

a ria sorri um sorriso largo de espuma
e eu fico na margem a reaprender o sonho

o mais é vento que passa

a terceira vitória consecutiva, com três barcos diferentes. bravo! arrais marco silva!

a terceira vitória consecutiva, com três barcos diferentes. bravo! arrais marco silva!

(ria de aveiro; regata da ria; 2015)

NOTA: na galeria municipal, na torreira, está patente, até dia 2 de agosto, a exposição “a ria no coração”, patrocinada pela câmara municipal da murtosa, e que documenta fotograficamente a construção do moliceiro “marco silva”. as fotografias são da autoria de abel cunha, antónio lousada e rui cruz.

crónicas da xávega (78)


para o jorge bacelar

aparelhado o barco espera a partida

aparelhado o barco espera a partida

mais do que horas
foram os momentos
os abraços por dentro
os sorrisos o sermos

descobrir o vento
por dentro das imagens
fazê-las voar para outros céus

a amizade a partilha

há homens que trazem
o mar espelhado nos olhos
e o ofertam para longas navegações

o barco está preparado para largar
esperemos que seja um bom lanço

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(torreira; barco de mar maria de fátima)

os moliceiros têm vela (127)


vou dormir

como se num sonho

como se num sonho

deixem-me dormir
seja qual for o motivo não
me acordem

estou cansado de viver
olhos abertos dia e noite
cansado de ser só olhos

quero sonhar
sonhar o que podia ter sido
recordar apenas o que mereceu
ser sonhado
e nunca passou do sonho

deixem-me dormir
quero as janelas abertas
muita luz pelo quarto
senti-la dentro de mim
ser eu por momentos

deixem-me sonhar de olhos fechados
ter de novo a ingenuidade da criança
para quem o mundo é um brinquedo
e todos são companheiros de brincadeira

deixem-me dormir
não ser por alguns momentos
esta coisa ambulante
um corpo agoniado de tantos dias

deixem-me sonhar
nem que seja só hoje
o sonho desconhece o tempo
porque é todo o tempo

vou dormir

tempo de moliceiros

tempo de moliceiros

(murtosa; regata do bico; 2009)