crónicas da xávega (34) – um homem


de que massa és feito, massa?

de que massa és feito, massa?

quantos homens são
um homem?

não há azinheiras
à beira mar
nem se ouve o cante
de mais ao sul
a solidão morre na areia
sem outra voz
que a do homem
da corda

enterram-se os pés
pesado o fardo
traiçoeiro o caminho
mas um homem
um homem

quando deixa de o ser?

com a massa do massa, não se faz mais nenhum

com a massa do massa, não se faz mais nenhum

(torreira; companha do marco; 2012)

postais da ria (51) – sou murtoseiro


 muito dura a vida na ria

muito dura a vida na ria

a minha gente
fez da água terra

atravessou o mar
em busca de outras terras

a minha gente
é desta terra
mas muitos
aqui não nasceram

a minha gente
fala de amor
quando diz

sou murtoseiro

o olhar só vê a beleza, não vê a dor

o olhar só vê a beleza, não vê a dor

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (11) – tenho de ganhar o meu


a luta é dura para alguns

a luta é dura para alguns

não digo nada
não faço nada

vou lá de quatro
em quatro anos

a vida custa
custa muito a vida

tenho de ganhar o meu
tenho de ganhar o meu
tenho de ganhar o meu

de quatro em quatro
anos vou lá
nos intervalos calo-me
sempre pode ser que me safe
a mesa é pequena mas as migalhas

tenho de ganhar o meu

que isto não é para todos

que isto não é para todos

( regata da ria; 2013)

os moliceiros têm vela (10) – de mim


o manuel silva chega ao bico para mais uma festa do emigrante, verão 2012

o manuel silva chega ao bico para mais uma festa do emigrante, verão 2012

Que importa perder a vida

em luta contra a traição,
se a razão, mesmo vencida
não deixa de ser Razão”

antónio aleixo

(murtosa; cais do bico; 2012)

(murtosa; cais do bico; 2012)

há muito que soltei amarras
de cais seguros
o meu andar é o meu caminho
sempre o meu

venham os que assim quiserem
deixem-me os que não
aceito dos amigos a palavra
o abraço não o silêncio
mesmo se

serei barco até um dia
o dia em que
serei mar por já não ser

até lá serei sempre eu

postais da ria (50) – da liberdade


a sobrevivência na ria de aveiro

a sobrevivência na ria de aveiro

ser em cada dia
as mãos por dentro
limpas de brumas

caminhar
solto de amarras
compromissos silenciosos
aspirações irreveladas

a liberdade é um grito
contra os muros
um voo puro de ave
num céu desconhecido

nada mais te digo

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(ria de aveiro; torreira; cabrita baixa)

murtoseiros


o ti zé rebeço prepara a vela do seu moliceiro. irá ganhar a regata

o ti zé rebeço prepara a vela do seu moliceiro. irá ganhar a regata

cuidam da palavra
como se da vida
guardam a palavra
dada

filhos da terra
para longe foram
que outra vida
quiseram aos seus dar

foram tudo
para serem alguém
foram tantos
sempre muitos

regressaram cansados
à raiz dos dias
à memória sofrida
do pão pouco
da partida

são murtoseiros

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(torreira; regata da ria, junho, 2014)

postais da ria (49) – andam por aí


a serenidade convida a pensar

a serenidade convida a pensar

conhecem os caminhos
por entre as pedras
que levam ao sol
rastejam
para

não têm destino próprio
serpenteiam ao sabor de

gosto deles quando se mostram
minúsculos esverdeados
espreitando se já
ou ainda não
esperam

esperam sempre
andam por aí

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(torreira; marina dos pescadores)

crónicas da xávega (31)


aguenta delmar, não largues o calão

aguenta delmar, não largues o calão

o abraço

desenhar as palavras
à altura da vaga vencida
será tarefa árdua

chegar onde estes homens
dizer deles o que
sem saber coo chegar até

escaldante como a areia
o pensar ser

morrer na praia é desejo
viver no mar é urgente

o abraço

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(torreira; companha do marco; 2014)