mariscador
subir os dias
a pulso
um a um
sem saber se
não ter patrão
e ser escravo
curvar-se até
às conchas
cavar a lama
ser mariscador
(ria de aveiro; torreira)
quantos homens são
um homem?
não há azinheiras
à beira mar
nem se ouve o cante
de mais ao sul
a solidão morre na areia
sem outra voz
que a do homem
da corda
enterram-se os pés
pesado o fardo
traiçoeiro o caminho
mas um homem
um homem
quando deixa de o ser?
(torreira; companha do marco; 2012)
não digo nada
não faço nada
vou lá de quatro
em quatro anos
a vida custa
custa muito a vida
tenho de ganhar o meu
tenho de ganhar o meu
tenho de ganhar o meu
de quatro em quatro
anos vou lá
nos intervalos calo-me
sempre pode ser que me safe
a mesa é pequena mas as migalhas
tenho de ganhar o meu
( regata da ria; 2013)
“Que importa perder a vida
em luta contra a traição,
se a razão, mesmo vencida
não deixa de ser Razão”
antónio aleixo
há muito que soltei amarras
de cais seguros
o meu andar é o meu caminho
sempre o meu
venham os que assim quiserem
deixem-me os que não
aceito dos amigos a palavra
o abraço não o silêncio
mesmo se
serei barco até um dia
o dia em que
serei mar por já não ser
até lá serei sempre eu
cuidam da palavra
como se da vida
guardam a palavra
dada
filhos da terra
para longe foram
que outra vida
quiseram aos seus dar
foram tudo
para serem alguém
foram tantos
sempre muitos
regressaram cansados
à raiz dos dias
à memória sofrida
do pão pouco
da partida
são murtoseiros
conhecem os caminhos
por entre as pedras
que levam ao sol
rastejam
para
não têm destino próprio
serpenteiam ao sabor de
gosto deles quando se mostram
minúsculos esverdeados
espreitando se já
ou ainda não
esperam
esperam sempre
andam por aí
(torreira; marina dos pescadores)
o abraço
desenhar as palavras
à altura da vaga vencida
será tarefa árdua
chegar onde estes homens
dizer deles o que
sem saber coo chegar até
escaldante como a areia
o pensar ser
morrer na praia é desejo
viver no mar é urgente
o abraço
(torreira; companha do marco; 2014)