postais da ria (21)


 

 

regata do bico em 2010. num dia sem vento os cisnes não voam

regata do bico em 2010. num dia sem vento os cisnes não voam

procura o instante
o tempo dentro do tempo
o momento em que

sem vento
tudo parece parado
à espera
nada mais ilusório

é parado que o tempo
anda mais depressa

vive agora o ser agora
o que foi
o que será
são isso mesmo

bebe o mais ínfimo
fragmento da luz
fabrica o teu instante

já passou

 

 

(domingo, dia 3 de agosto, há regata no bico, ainda ….. aparece)

postais da ria (20)


 

 

cais do bico, agosto, 2012. antes da regata

cais do bico, agosto, 2012. antes da regata

 

estou onde os meus olhos
reencontro de mim
com o tempo mais íntimo

sou ainda o que vejo
não o que se vê
espelhado nas janelas dos dias

o que fui
o que de mim quisera
que não se perdesse
esse jovem louco e cheio de vida
o que se perdeu e se encontrou
para se perder de novo
e melhor se encontrar

o que fui
é no que sou
aquilo que te deixo
para ser ainda

guarda-o
como se a mim

 

(ria de aveiro; murtosa; bico; regata 2012)

 

domingo dia 3 de agosto, há de novo regata, ainda …. espero por ti

 

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crónicas da xávega, torreira (19)


 

 

 

ti horácio

ti horácio

 

tudo em nada se torna
é esse o trabalho do tempo

ao homem cumpre
em algo tornar
o nada que tudo foi

a memória
assassina-se preserva-se
constrói-se

serão rascunhos de imagens e palavras
o que vou semeando
nada mais que rascunhos

toma-os

 
(torreira; companha do marco; julho, 2014)

crónicas da xávega, torreira (17)


 

caminhos de areia

caminhos de areia

porque amavam o mar

 

há poucos dias
30 de junho para ser preciso
o poeta joaquim namorado
faria cem anos se vivo
hoje passam dez anos
sobre a morte de sophia

os poetas
os grandes poetas
vão crescendo na memória

o pulsar a vida
em cada verso
o sentir de um povo
em cada poema
serem de carne e sangue
as palavras
o seu legado

estar aqui ainda
é serem eles em nós

a voz necessária

 

(torreira; companha do marco; jun, 2014)

crónicas da xávega, torreira (16)


 

 

escolha do peixe

escolha do peixe

 
fossem de trabalho as mãos

 
entram e saem
compram vendem
vendem-nos
ganham muito sempre
astronómicas somas
pequeno o défice para tanto
para tão poucos

hoje eu
amanhã tu
sempre a famílias
os amigos
compadres
comparsas
comendo na mesa farta
revezam-se

fossem de trabalho os dias
seriam menos os que
de poleiro cantariam
de saber
que o que gastam e malbaratam
teriam de pagar

haja dinheiro basto
que advogados e padrinhos
não faltarão

a banca de novo

 
(torreira; companha do marco; jun, 2014)

crónicas da xávega, torreira (15)


o carregar do saco na zorra

o carregar do saco na zorra

 

meditação à beira mar
há os que lutam pelo futuro
os que vivem o presente
e os que choram o passado

há ainda
os que se fazem presente do presente
para ganharem no futuro
um lugar no passado

pode parecer apenas um jogo de
palavras
uma brincadeira em torno da gramática
mas é um retrato de muito boa gente
são tantos
tão pretensamente felizes consigo mesmos
tão tão eus

esquecem-se de uma coisa simples
é que podem
também eles
ser esquecidos

o espelho é de cristal fino

 

– o carregar do saco na zorra, é tarefa de peso –

 

(torreira; companha do marco; jun, 2014)

crónicas da xávega (14)


 

o ti augusto segura o nó da corda que prende a calima ao fundo do saco

o ti augusto segura o nó da corda que prende a calima ao fundo do saco

a agulha
desfazer nós
metáforas baratas de falsos consensos
acender uma vela
por pequena que seja
ver e mostrar
saber e dizer

sem pretensões de longe
sem ilusões de muito
falar e dizer
porque calar
é consentir
sabedoria de povo
quantas vezes calado

fina e diminuta a agulha
a picadela

isso tão só

 

(torreira; companha do marco; jun, 2014)

crónicas da xávega, torreira (13)


 

o ti américo e a chegada da manga do reçoeiro

o ti américo e a chegada da manga do reçoeiro

 

queria pensar menos
o tempo das máquinas
não é fim do tempo dos homens
é um outro tempo
onde o mesmo homem é outro

queria pensar menos
viver mais à tona dos dias
boiar por aí
sem âncora
nem raízes

que tempo é este
onde o pão para uns
é uma mesa onde milhões se perdem
em condicional
ou domiciliariamente acomodados
enquanto para outros
é arrancado com raiva aos dias
que começam com o sol?

queria pensar menos
– o ti américo, acelera no alar da manga do reçoeiro e todo ele é o instante –

 

(torreira; companha do marco; jun, 2014)

crónicas da xávega, torreira (12)


 

o barco de mar maria de fátima, do arrais marco silva

o barco de mar maria de fátima, do arrais marco silva

dos homens

 

não basta crescer no tempo

ser maior no tamanho

contar mais dias

 

o homem

ou cresce por dentro

ou é a desilusão de o não ser

 

que coisa é o homem?”

perguntava drummond

apetece dizer de alguns

nada mais que coisa

nada mais e muito já é

 

estendo os olhos pela areia

sigo rastos efémeros

e pergunto

 

porquê?

 

(deitado na areia, o maria de fátima ouve-me cúmplice e leva-me para longe de tudo isto. estou no meio de um mar, onde só ele sabe levar-me. sonho sem vontade de acordar)