choveu na ria
há chuva por dentro do verão
por dentro dos olhos
dos dias onde
memórias
pesam
tudo se desvanece
num filme
onde não me queria
onde ninguém
também a ria
também a ria
vai passando
vai
vai
(ria de aveiro; torreira; jul, 2014)
porque amavam o mar
há poucos dias
30 de junho para ser preciso
o poeta joaquim namorado
faria cem anos se vivo
hoje passam dez anos
sobre a morte de sophia
os poetas
os grandes poetas
vão crescendo na memória
o pulsar a vida
em cada verso
o sentir de um povo
em cada poema
serem de carne e sangue
as palavras
o seu legado
estar aqui ainda
é serem eles em nós
a voz necessária
(torreira; companha do marco; jun, 2014)
fossem de trabalho as mãos
entram e saem
compram vendem
vendem-nos
ganham muito sempre
astronómicas somas
pequeno o défice para tanto
para tão poucos
hoje eu
amanhã tu
sempre a famílias
os amigos
compadres
comparsas
comendo na mesa farta
revezam-se
fossem de trabalho os dias
seriam menos os que
de poleiro cantariam
de saber
que o que gastam e malbaratam
teriam de pagar
haja dinheiro basto
que advogados e padrinhos
não faltarão
a banca de novo
(torreira; companha do marco; jun, 2014)
meditação à beira mar
há os que lutam pelo futuro
os que vivem o presente
e os que choram o passado
há ainda
os que se fazem presente do presente
para ganharem no futuro
um lugar no passado
pode parecer apenas um jogo de
palavras
uma brincadeira em torno da gramática
mas é um retrato de muito boa gente
são tantos
tão pretensamente felizes consigo mesmos
tão tão eus
esquecem-se de uma coisa simples
é que podem
também eles
ser esquecidos
o espelho é de cristal fino
– o carregar do saco na zorra, é tarefa de peso –
(torreira; companha do marco; jun, 2014)
a agulha
desfazer nós
metáforas baratas de falsos consensos
acender uma vela
por pequena que seja
ver e mostrar
saber e dizer
sem pretensões de longe
sem ilusões de muito
falar e dizer
porque calar
é consentir
sabedoria de povo
quantas vezes calado
fina e diminuta a agulha
a picadela
isso tão só
(torreira; companha do marco; jun, 2014)
queria pensar menos
o tempo das máquinas
não é fim do tempo dos homens
é um outro tempo
onde o mesmo homem é outro
queria pensar menos
viver mais à tona dos dias
boiar por aí
sem âncora
nem raízes
que tempo é este
onde o pão para uns
é uma mesa onde milhões se perdem
em condicional
ou domiciliariamente acomodados
enquanto para outros
é arrancado com raiva aos dias
que começam com o sol?
queria pensar menos
– o ti américo, acelera no alar da manga do reçoeiro e todo ele é o instante –
(torreira; companha do marco; jun, 2014)
dos homens
não basta crescer no tempo
ser maior no tamanho
contar mais dias
o homem
ou cresce por dentro
ou é a desilusão de o não ser
“que coisa é o homem?”
perguntava drummond
apetece dizer de alguns
nada mais que coisa
nada mais e muito já é
estendo os olhos pela areia
sigo rastos efémeros
e pergunto
porquê?
(deitado na areia, o maria de fátima ouve-me cúmplice e leva-me para longe de tudo isto. estou no meio de um mar, onde só ele sabe levar-me. sonho sem vontade de acordar)
meditação à beira mar
olho agora tudo com o desprendimento
de quem nada mais tem a perder
que a si mesmo
e é tão pouco
se da vida esperei muito
dos homens nunca esperei tanto
mas é tão pouco o que deles vejo hoje
que ser mais um
é pedir de menos a mim próprio
não trago a verdade no bolso
nem a história é coisa que dono tenha
olho sinto e não entendo
continuo a gritar
dentro de um pesadelo
quem me roubou o sonho?
(torreira; companha do marco; jun, 2014)
da beleza
pesquisar qual a utilidade da beleza
é procura inútil
a beleza acontece
sem motivo outro
que beleza ser
a bica da proa e a decoração
dos moliceiros
são disso evidência
aconteceram para serem
aconteceram
cada vez mais
para terem sido
sento-me à mesa da ria
cravo nela os cotovelos
à sua roda os meus e todos
os que nela foram um dia
todos
estão aqui agora
mais que nunca
vogando dentro
do mais belo
barco do mundo
(ria de aveiro; canal de ovar; 2010)
falta-lhe a cadeira de coiro
recostável com rodinhas
falta-lhe o ar de quem julga saber
e por isso fala do alto da sua ignorância pesporrenta
ditando leis de que ignora
o como e porquê
não é um senhor
sabe que sem redes reparadas
não há peixe
que sem ele não há janta
corpo miúdo franzino
seco e com genica
conhece quase toda a gente
não é de silêncios
uma conversa é sempre bem vinda
chama-se delmar
de alcunha é viola
não sei há quanto tempo
o conheço
(torreira; companha do marco; jun, 2014)