inventar a janela
ver a porta
entrar na casa
no coração da casa
inventar o tempo
o dia é a invenção
de si mesmo
a porta sorri um sorriso
outonal
isso te queria dizer
deste lume breve
hoje
se a taxa de irs subir
se o iva aumentar
a mim cidadão
diz o governo que
aumentam os impostos
se se cortam as pensões
se se cortam os ordenados dos funcionários públicos
se se corta o subsídio de desemprego
se se diminuem as prestações sociais
a mim cidadão
diz o governo que
diminui a despesa
entre o aumento
e a tal da diminuição
verdade seja dita
que
quem se lixa sempre
sou eu cidadão
(isto não é um poema, é uma foto: o retrato da relação sexual entre o governo e o cidadão)
há dias assim
sem palavras
sem assunto
dias de deixar tudo ir ver o mar
e não querer escrever nem pensar
há dias assim
em que o silêncio é enorme
engole tudo e
as palavras?
onde estão as palavras?
sequer fica uma página em branco
nem a desculpa gasta de não haver material
o material está aqui desmaterializado
na não escrita desta escrevedura
há dias assim
que queres
hoje não escrevo
ponto final
ao rés da água
a beleza sorri líquida
os homens são ainda
a continuação de
o regresso ao ter sido
velas erguidas desafiam o vento
e a sabedoria de quem
de todos os cantos do concelho
onde bateiras ainda
a festa renova-se no bolinar
desafiante
a ria sorri de plena
mãe renovada
de filhos sempre moços
para ler com o filme de Jorge Bacelar
com pauta e partitura
escritas a preceito
e a pedido
o maestro mais não é
que marionete
do emprego futuro
herança de ter sido
a orquestra
sabe o que quer
disso está certa
tanto quanto mentir
para não o dizer
interesses de poucos
que muitos enganar querem
músicos …….
sei-os
o suficiente para não
saber de medo
e interpretar pauta diversa
saberás tu?