eu cidadão


 

cidadão

cidadão

 

se a taxa de irs subir

se o iva aumentar

 

a mim cidadão

diz o governo que

aumentam os impostos

 

se se cortam as pensões

se se cortam os ordenados dos funcionários públicos

se se corta o subsídio de desemprego

se se diminuem as prestações sociais

 

a mim cidadão

diz o governo que

diminui a despesa

 

entre o aumento

e a tal da diminuição

verdade seja dita

que

quem se lixa sempre

sou eu cidadão

 

(isto não é um poema, é uma foto: o retrato da relação sexual entre o governo e o cidadão)

há dias assim


praia de buarcos

praia de buarcos

 

há dias assim

sem palavras

sem assunto

dias de deixar tudo ir ver o mar

e não querer escrever nem pensar

 

há dias assim

em que o silêncio é enorme

engole tudo e

as palavras?

onde estão as palavras?

 

sequer fica uma página em branco

nem a desculpa gasta de não haver material

o material está aqui desmaterializado

na não escrita desta escrevedura

 

há dias assim

que queres

hoje não escrevo

ponto final

mãe ria


remoçado o veterano, ti zé rebeço

remoçado o veterano, ti zé rebeço

 

ao rés da água

a beleza sorri líquida

os homens são ainda

a continuação de

o regresso ao ter sido

 

velas erguidas desafiam o vento

e a sabedoria de quem

 

de todos os cantos do concelho

onde bateiras ainda

 

a festa renova-se no bolinar

desafiante

 

a ria sorri de plena

mãe renovada

de filhos sempre moços

 

para ler com o filme de Jorge Bacelar

 

músicos


este é de facto é um músico

este é de facto é um músico

 

com pauta e partitura

escritas a preceito

e a pedido

o maestro mais não é

que marionete

do emprego futuro

herança de ter sido

 

a orquestra

sabe o que quer

disso está certa

tanto quanto mentir

para não o dizer

interesses de poucos

que muitos enganar querem

 

músicos …….

 

sei-os

o suficiente para não

saber de medo

e interpretar pauta diversa

 

saberás tu?