manuel antónio pina na figueira da foz (7)


manuel antónio pia, foto de sérgio granadeiro, edição bw de ahcravo

manuel antónio pina, foto de sérgio granadeiro, edição bw de ahcravo

 

de manuel antónio pina

 

Cuidados Intensivos

A esta hora e neste sítio
(miocárdio ventricular esquerdo)
é a abstracta vida que me assalta.
Eles não sabem
que o seu coração pulsa,
ferido, no meu coração,
que a minha dor alheia
vagarosamente mata
os seus sonhos, os seus sentidos,
os seus dias visíveis e invisíveis,
a linha dos telhados
ao longe sobre o céu.
Como saberiam
(com que palavras exteriores?)
que existem
dentro de mim
de um modo fora de mim,
os parentes, os amigos,
a vaga enfermeira da noite,
que enquanto o meu Único coração
morre na minha cabeça
a luz do quarto se
apaga para sempre
e o silêncio se fecha
sobre os corredores?
No quarto ao lado alguém
a noite passada morreu,
provavelmente eu.
Os livros, as flores
da mesa de cabeceira
conhecerão estas últimas coisas
em algum sítio da minha alma?

o último vídeo

BASTA!!!!!!


 

basta!!!!!!!!!!!!

basta!!!!!!!!!!!!

 

não nos queiram contar
fomos muitos
fomos indignação
protesto
fomos gerações
unidas massacradas
mas não vencidas

não nos queiram contar
fomos bastantes
revivemos o que pensávamos
já não
fomos ainda os mesmos
e muitos mais

isso te digo
cantámos e dissemos
basta!
basta!
ouviram?

estaremos cá
sempre
por nós
os que pela mão
ensinámos
a serem

estaremos cá
sempre
BASTA!

 

o vídeo

 

 

manuel antónio pina, na figueira da foz (6)


 

manuel antónio pina na revista sábado

manuel antónio pina na revista sábado

 

de manuel antónio pina

 

A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

 

Do livro “Aquele que Quer Morrer”

 

o vídeo

 

manuel antónio pina na figueira da foz (5)


 

manuel antónio pina, foto de ricardo fortunato

manuel antónio pina, foto de ricardo fortunato

do autor:

 
Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos
“Os gatos”, de Manuel António Pina

(in Como se desenha uma casa; ed. Assírio & Alvim, 2011)

 

para ler com o vídeo

 

manuel antónio pina na figueira da foz (4)


foto de lucília monteiro

foto de lucília monteiro

 

de manuel antónio pina

 

A um jovem poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê.
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

 

manuel antónio pina, figueira da foz 2012 (3)


foto de helder sequeira no correio da guarda

foto de helder sequeira no correio da guarda

de manuel antónio pina:

Junto à água
Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia