o Interesse Nacional


 

 

logo pela manhã

depois de ter respirado o ar puro

do jardim fronteiro à vivenda onde morava

na quinta da marinha

o Interesse Nacional

chamou o motorista

 

sem pressas recostou-se no banco

traseiro

acendeu o primeiro charuto do dia

contemplou o tejo

pressentiu o mundo

 

chegado ao gabinete de onde comandava

os seus investimentos em países diversos

chamou a secretária pediu

o café

a agenda do dia

a correspondência

a síntese dos mercados e da informação

 

contactou os seus servos

soube de perdas e ganhos

aceitou sugestões

ponderou decidiu

como ganhar muito

sentado na cadeira de pele modelo executivo

 

os juros

a dívida

o défice

não lhe facilitavam o negócio

esperava porém que as políticas anunciadas

pelos seus amigos

lhe permitissem multiplicar os ganhos

 

que diabo

afinal

ele era

o Interesse Nacional

 

– veio-me à memória uma canção

de tempos idos e que

a dado passo rezava assim:

…. levados, levados sim …

 

até quando?

 

assaltaram a palavra


 

assaltaram a palavra

eram homens os que

 

cheiram a gamela

nela chafurdam

se vendem

compram

mais que homens

a gamela são

 

saber-lhes o percurso

conhecer o preço por que

o sorriso cínico

o terem sido para não serem já

fraca gente esta

pobre povo este

 

assaltaram a palavra

para melhor roubar

subiram descendo

essa a sua arte

o seu despudor

a nossa vergonha de

 

por mais oiro que tenham

não valem uma merda

 

o teu destino


 

 

vai até ao fundo

procura os porquês

tu és a eterna questão

sê a pergunta

exige a resposta

 

não cales

não consintas

não aceites

não desistas

não deixes de ser

 

provoca a onda

quebra o silêncio

ergue-te ergue

provoca convoca

não és só mais um

exige a resposta

 

serenas são as águas

onde o espelho

se recria e a gaivota

 

olha-os e parte

que é diverso o teu destino

mãe


 

a mão estendida

 

o sorriso

 

a carícia

 

o estar ali sempre

 

mesmo se

 

 

 

a tua

 

a minha

 

as nossas

 

 

 

mãos

 

vidas

 

olhos

 

 

 

o teu nome

 

senti-lo nos lábios

 

como se tu

 

em mim

 

dizer-te é ter-te

 

 

 

tiveste-me

 

para que te

 

tivesse

 

e em mim fosses

 

 

 

mãe

 

como sou pequenino

 

coimbra_1 de maio de 2013


 

Dificuldade de governar

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo 
Como é difícil governar. Sem os ministros 
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima. 
Nem um pedaço de carvão sairia das minas 
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda 
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra 
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol 
Sem a autorização do Führer? 
Não é nada provável e se o fosse 
Ele nasceria por certo fora do lugar. 

2

E também difícil, ao que nos é dito, 
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão 
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem. 
Se algures fizessem um arado 
Ele nunca chegaria ao campo sem 
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem, 
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que 
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural? 
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas. 

3 

Se governar fosse fácil 
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer. 
Se o operário soubesse usar a sua máquina 
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas 
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários. 
E só porque toda a gente é tão estúpida 
Que há necessidade de alguns tão inteligentes. 

4 

Ou será que 
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira 
São coisas que custam a aprender?

 

(Bertold Brecht)

 

somos a afirmação


 

 

fabricamos o tempo

o nosso tempo

com a música dos gestos

suspensos

no exacto instante em que

vindos do silêncio onde habitavam

nos cercearam as vozes

 

somos ainda o haver amanhã

um dia de sol aberto a todos

não o impossível sonhado

mas o real a que estamos condenados

pelo facto de sermos

 

estamos

ali onde palavra e gesto se confundem

não temos medos nem donos

mais muitos mais

crescemos a cada dia

 

somos a afirmação da recusa

 

uma criança a sorrir abril


cravos de abril

cravos de abril

 

trazer abril no peito

senti-lo sorrir

senti-lo chorar

a raiva e a alegria

no mesmo abraço

 

basta

um cravo ao peito

um cravo no peito

um cravo apenas

 

olho os peitos

as lapelas

que aos cravos devem

o estarem

e não os vejo não os vejo

 

na mão de uma criança

um cravo sorri

sorriso puro

de puro abril

primavera de um tempo outro

 

sorrio também

tenho uma criança dentro de mim

a sorrir abril

 

não trago novas


cais do chegado, murtosa

 

não trago novas

não as sei

há muito que caminho

tudo se repete

na ilusão

 

não trago novas

os nomes fui-os deixando

sobram alguns rostos

olhares mãos

palavras poucas

 

não trago novas

há muito que caminho

só isso sei

caminhar e perder-me

e é tanto

 

o pescador subirá para a bateira

onde o camarada o aguarda

partirão ambos a fazer a maré

eu

eu ficarei no cais mais um pouco

e regressarei a casa

 

são assim os dias

mesmo aqueles em que

não trago novas

(chegado, murtosa)