manuel antónio pina na figueira da foz, 2012 (2)


manuel antónio pina (foto de alfredo cunha)

foto de alfredo cunha

Vê se há mensagens
no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa.

Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?

Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.

de Cuidados Intensivos(1994)

diz de ti


 

companha do falecido arrais zé murta; torreira, 2008)

companha do falecido arrais zé murta; torreira, 2008)

vão duros os tempos

 

da companha que hoje

urgente se torna

ou somos nós os camaradas

ou o peixe caído na rede

dos financeiros

armadores da trama

 

é tempo de decidir

quem quer ser o quê

é tempo de saber

se um homem vale mais

que um peixe

 

canta se tens voz

grita se revoltado

silencia-te se morto

diz de ti

 

seremos povo?


cailda e zé pato

cacilda e luciano caravela

somaram-se

os dias

na safra do pão

foi-se

na conta o ano

amigos

chegaram e partiram

alegrias tristezas

perdas e ganhos

 

como se na china

de um animal

o ano

coelho

 

como se na china

o ano se fez

do salário

cada vez menos

gasparado que foi

no desgoverno

 

portugal

quem são?

este país

quem é?

 

passo a passo

passos

só tem um destino

saberemos dar-lho

ou não seremos

povo?