filhos da terra


 


habitam o silêncio
com a naturalidade das flores
por debaixo do sol

são

abrem caminhos que nunca
percorrerão
fazedores de tanto
com pouco se sabem por aí

deles dizem
“o país profundo”
sem eles pergunto-vos:
que país?
que mundo?

uma nota breve
no jornal da terra
tarja negra
uma sineta pelas ruas
um nome a quem pergunta
isso são

até lá
bebem o sol
habitam o silêncio

Poema de ahcravo

zé serra


 

zé serra

zé serra

 

 

caixas no mar lavadas
leito último do carapau
onde o serem dele rasas
dirá quanto o lanço deu
em peso aproximado

nunca o valor em dinheiro
que esse só na lota
os compradores
quantas vezes combinados
em pouco mudarão o muito
em quase nada o tanto suado

dirás no mercado ao vê-lo
em cima da pedra a brilhar
que o peixe é caro
o preço elevado
e te sentes roubado

serás então igual ao pescador
mais um
na cadeia da exploração
de um outro mercado

 

(torreira, à memória do arrais zé murta, 2009)

cinismo em abril


as crianças afegãs

as crianças afegãs

7 de abril de 2013

afeganistão

11 crianças morrem

vítimas de ataque aéreo norte-americano

notícias poucas

o que aconteceu:

“erro”

em seguida

silêncio

 

16 de abril de 2013

boston

1 criança e 2 adultos morrem

vitimas de explosões de bombas artesanais

notícias abonde

o que aconteceu:

“terrorismo”

em seguida

alarme geral no “ocidente”

 

dirás:

onde a poesia aqui?

 

dir-te-ei:

na denúncia da hipocrisia

 

não há poesia no assassínio

como não há poesia no manipular da vida

11 crianças afegãs morrem por erro

1 criança e 2 adultos americanos são vítimas de terrorismo

é esta a mensagem vendida ao mundo

 

queria dizer-te

algo muito simples

e fácil de entender:

perderam-se 14 vidas humanas

das quais 12 eram crianças

e todas

mas todas

vítimas de “terrorismo”

dignas do mesmo tratamento

 

não

aqui não há poesia

há amargura

 

que mais poderia haver?

6 poemas de joaquim namorado ditos por rui damasceno


joaquim namorado

joaquim namorado

 

Aviso à navegação

(poema de Joaquim Namorado)

Alto lá!

Aviso à navegação!

Eu não morri:

Estou aqui

na ilha sem nome,

sem latitude nem longitude,

perdida nos mapas,

perdida no mar Tenebroso!

Sim, eu,

o perigo para a navegação!

o dos saques e das abordagens,

o capitão da fragata

cem vezes torpedeada,

cem vezes afundada,

mas sempre ressuscitada!

 

Eu que aportei

com os porões inundados,

as torres desmoronadas,

os mastros e os lemes quebrados

– mas aportei!

 

Aviso à navegação:

Não espereis de mim a paz!

 

Que quanto mais me afundo

maior é a minha ânsia de salvar-me!

Que quanto mais um golpe me decepa

maior é a minha força de lutar!

 

Não espereis de mim a paz!

 

Que na guerra

só conheço dois destinos:

ou vencer – ai dos vencidos! –

ou morrer sob os escombros

da luta que alevantei!

 

– (Foi jeito que me ficou

não me sei desinteressar

do jogo que me jogar.)

 

Não espereis de mim a paz,

aviso à navegação!

 

Não espereis de mim a paz

que vos não sei perdoar!

 

(Este poema de 1941 foi retirado da edição do Novo Cancioneiro da Caminho, de 1989, com prefácio, organização e notas de Alexandre Pinheiro Torres.)

(des)entendimento


marina dos pescadores da torreira

marina dos pescadores da torreira

porque entendo e ainda tenho memória

não entendo que não entendam

que eu entendo que o tribunal não deve ser preso

e o ladrão libertado e medalhado

 

mas há quem entenda o que eles entendem

que deve ser entendido por todos

 

não entendo que os funcionários públicos portugueses

não fazem parte do povo português

não entendo que os pensionistas já deviam ter morrido

no próprio acto de se aposentarem

 

mas há quem entenda o que eles entendem

que deve ser entendido por todos

 

não entendo porque depois de tanto ter passado

e estudado para ter entendimento

me seja pedido que entenda o que não tem

qualquer entendimento possível

 

mas há quem entenda o que eles entendem

que deve ser entendido por todos

 

espero que entendam

que a mim e a muitos como eu

não falta força anímica para continuar

a não entender o pretenso entendimento

que nos querem vender

 

espero que entendam

os que entendem o que lhes querem fazer entender

que ainda um dia vão entender

que entenderam mal

popola


popola

popola

 

nunca lhe soube o nome

pois outro haverá

por detrás daquele

que é este

 

colada ao corpo

a alcunha

dirá de uma história

que desconheço

de um ter sido ou havido

que certamente é

 

popola

é um sorriso estampado no rosto

uma criança por dentro

de um homem

um sentir diferente dos demais

um braço igual a tantos

 

que sabe o mar disto?

 

 

(à memória do arrais zé murta, torreira, 2009)