também
à praia dos afectos
só arribam barcos
de braços abertos
passamos, meu amigo
passamos todos
alguns porém
deixam marcas fundas
na areia
no olhar o mar
no resistir
passamos, meu amigo
passamos todos
mas ficamos com os que ficam
neste tempo embalado
pelas ondas
voadas nos gritos das gaivotas
passamos, meu amigo
passamos todos
tu
tu foste à frente de muitos
por isso
nós
nós os que ainda por aqui andamos
sabemos o teu nome
conhecemos-te o corpo
e dizemos:
é tempo de mar vitor
bota!
(torreira; companha do marco; 2009)
eu reformado me confesso por ainda estar vivo quando deveria ter morrido no exacto instante em que deixei de trabalhar eu reformado me confesso por receber mensalmente uma pensão (já ratada à má fila) para a qual descontei todos os meses dos muitos anos que trabalhei entregando parte do meu ganho aos que em mim confiaram e eu neles confiei eu reformado me confesso por ter sempre vivido do salário ganho em cada dia gastando o que tinha e não mais do que podia se economias tenho e delas me sirvo pelas poupanças peço perdão pois se não fossem elas difícil seria continuar vivo eu reformado me confesso por todos os dias sentir que já não estou tão saudável e que a doença não me faz mal a mim mas à sustentabilidade do sistema de saúde que alguns só concebem para pessoas sãs que não causam despesa o que me põe ainda mais doente eu reformado me confesso por ter tido filhos os ter criado, educado, formado, preparado para produzirem riqueza neste que é o seu país e continuar hoje a ajudá-los na criação dos meus netos que empregos não há para o esforço que fiz eu reformado me confesso p r o f u n d a m e n t e r e v o l t a d o por me roubarem sem nunca ter roubado desse crime me confesso e peço perdão nunca roubei, isso não

todos os hoje são uma semana que começa os dias são dias e nada mais o tempo passa simplesmente sem necessidades de calendário por debaixo das pedras na sombra fria um raio de sol procura os vermes sentados em cadeiras almofadadas de onde lançam compridas línguas para lamber a luz amanhã porque vai sempre haver um amanhã lembrar-nos-emos de terem sido tempo demais culpa nossa a de gritarmos apenas debaixo de outras pedras haverá um hoje em que a sua semana não se iniciará por ser só nossa nesse dia o sol quebrará as pedras o ventre dos vermes inchará e rebentará por esse dia lutaremos
(condeixa; eira pedrinha)
quem sou eu
que não sei quem sou
dos tantos que em mim?
o quase em tudo
mário
(pretensiosismo esse do tudo)
o quase nada
eu
isso sim sei
as palavras quase
o estar com quase
o quase quase sempre
o que não vejo
o que não digo
onde não estou
onde estou e não
o quase tão simples de ser
o quase nada
eu
canso-me de correr e
a nada chego pleno de mim
o vazio entre tudo e
eu
o intervalo
apenas isso
as reticências para além de
o incompleto completamente
nem aquém fiquei
mário
nem aquém
não sei onde
não por aí
que cheio está esse lugar
por aqui?
mas
que aqui?
não tenho braços mário
para tanta geografia
onde todos os que
eu
abarcar quero
qual quase mário
qual quase
quase nada
eu
isso sim