a gente da nossa terra


um vídeo de Jorge Bacelar a que emprestei palavras

paridos do ventre
da terra
cresceram com os animais
o milho e as couves
são irmãos de todos
que a todos amam

os pés-raízes
bebem na mãe as forças
com que vencem
as surpresas adversas da natureza
e a perversidade do mundo
onde vigoram valores que lhes são estranhos

cansados desgastados
pelo tempo e a vida dura
acordam o dia e os galos da capoeira
que lhes matarão a fome em dias de festa
ou domingos de descanso por inventar

a terra os viu nascer
a terra os virá colher
a terra-mãe
a terra-mulher

Poema de ahcravo

o poder dos óculos de sol


ti miguel bitaolra

ti miguel bitaolra

 

 

por uns momentos

a fuga
a imagem não é daqui
é de vir até

o pescador
o homem das companhas
da torreira e do outro lado da barra
pôs uns óculos de sol
(quem sabe oferta de amigo ou turista)
voou e poisou aqui
já outro

de barba rija
português de gema
(como soi dizer-se)
o pescador
é agora actor num filme nacional
de promoção da xávega

por uns momentos
só por uns momentos
o sonho cresceu sobre a areia
e não durou mais
que a faina dá pouca folga

espectáculo ti miguel !

 

da margem


escrevo das margens

onde os olhos

marginais também

 

sou

mais um apenas

nos caminhos

por onde ando

desando

encontro desencontro

 

nos apertamos as mãos

e dizemos

de nós

sem tempo de antena

nem pressas de

 

na margem

não à margem

debruçado sobre

bem por dentro

no côncavo

dos dias

 

na margem sempre

de onde se vê melhor

o centro