ti antónio neto


ti antónio neto

ti antónio neto

 

 

foi tempo, ti antónio

mais um verão

em que demos os sorrisos

palavras poucas

mar tanto

peixe algum

 

foi tempo, ti antónio

cerra-se agora a névoa

sobre a praia

e só a memória tudo aclara

 

foi tempo, ti antónio

guardo ainda o abano de penas de gaivota

feito em dias de menos mar

pendurado na corda da roupa

à espera de quem passe e queira comprar

 

guardo mais, ti antónio

guardo um sorriso de criança

nuns olhos azuis

perdidos sempre mais além

 

além onde você agora

ti antónio

além ao pé de nós

 

 

(torreira; companha do marco; 2009)

pretensamente


marina pescadores_torreira

 

o pretenso não é

o que pensa

senão seria o que

não é

e isso seria muito bom

para ele

 

o pretenso tem

opinião sobre tudo

sobretudo sobre

o que não sabe

 

o pretenso não fala

para os outros

mas para se ouvir

ilude-se na pretensão

da auto audição

 

o pretenso

dito por extenso

é o por debaixo

do que ao de cima

pretende ser

 

o pretenso

é vítima onde se julga

herói

na ânsia de querer

o pretenso

corrói

 

o pretenso é

deixê-mo-lo ser

pretensamente

descansemos em paz


pôr do sol no bico, murtosa

pôr do sol no bico, murtosa

concebe o silêncio

como uma música onde as palavras

se buscam e purificam

 

escuta-o

sente como são belos estes momentos

em que o silêncio te rodeia

 

sê parco nas palavras

e grande nos actos

cresce para o silêncio

 

um dia

sim um dia

ele crescerá para ti

 

até lá

que descansássemos em paz

isso desejava

meu caro


palhaço

palhaço

desceu a senhora à terra

meu caro

que já só de milagres este país

se sustenta

não haver

santa bárbara uma trovoada

esquecida

um raio que os parta

uma cheia que os leve

não haver senhores

um pouco de decoro

em tudo isto

chamaram-lhe palhaço

meu caro

acha que a senhora

lhe pode valer?

22 de maio de 2013_furadouro_porquê?


jovem o barco que naufragou

jovem o barco que naufragou

salvé benjamim carriola

savé jacinto moreira

 

hoje diante de vós

se abriram as portas do mar

e sobre vós se fecharam

 

ser pescador aqui

nesta costa onde os grandes aprenderam

a arte de navegar e se fizeram a ignotos destinos

é ser português dos três costados

 

salvé benjamim carriola

salvé jacinto moreira

 

nós

que descendemos dos que nunca se fizeram ao mar

e por isso cá estamos

 

nós

aqui vos dizemos

se portugal tem filhos

vós sereis sempre os seus mais dilectos

 

nós

ao dizermos o vosso nome

crescemos para o mar e gritamos:

 

porquê?