há um cansaço imenso parado nos teus olhos prolongas-te no tempo enches-te das memórias onde permaneces o outro ainda és mas a sombra cresce a cada dia
(torreira; marina dos pescadores)
sobre os dias escrevo
não as comemorações
mas o espanto deste país
em desmoronamento
vítima
de um 1755 nacional provocado
pela ganância do capital
liberem-me dos liberais
senhores de gravatas
carros topos de gama
falocráticos símbolos
de uma suciedade
onde o homem é
euro-convertível
sobre os dias escrevo
a fome
o desemprego
as noites ao relento
os despejos
a fome
a fome
a fome
onde os jovens desta terra?
deles alguns oportunistas
sobem as escadas dos partidos
do chamado
arco do poder
e ei-los brilhantinamente
engravatados limpos por fora
à espera da próxima gamela
quanto aos mais
é vê-los desempregados ou
a comprar bilhete de partida
sem regresso
sem regresso
sobre os dias escrevo
a oportunidade que a crise trouxe
aos que detendo o capital
disporem de mão de obra
tão barata e tão qualificada
e aumentarem absurdamente
as suas absurdas fortunas
sobre os dias escrevo
o desprezo
pelos mais velhos
pela ética
pelo cumprimento das obrigações
pelos saberes
pelos valores
pelo respeito
pela cultura
sobre os dias escrevo
a negro
que negros são estes dias
em coimbra não fomos muitos
em coimbra a dos doutores
fomos os que de palco não carecem
habituados que estão a ser
mesmo quando ribaltas não há
em coimbra dos doutores
desalinhadamente
marchámos, cantámos, protestámos
fomos não só nós
mas aqueles que não se sabendo
ou julgando-se acima de
se ficaram por onde melhor se acharam
ou se resguardaram para multidões
a vir
em coimbra fomos poucos?
não
definitivamente não
fomos muitos
fomos os que desde sempre
sabem que os caminhos são duros
quando conquistados
mas valem a pena ser percorridos
por isso mesmo
em coimbra foram poucos
os que fizeram falta
aos muitos
que disseram bem alto:
a rua é nossa
a dívida não
em coimbra não fomos muitos
em coimbra a dos doutores
fomos os que de palco não carecem
habituados que estão a ser
mesmo quando ribaltas não há
em coimbra dos doutores
desalinhadamente
marchámos, cantámos, protestámos
fomos não só nós
mas aqueles que não se sabendo
ou julgando-se acima de
se ficaram por onde melhor se acharam
ou se resguardaram para multidões
a vir
em coimbra fomos poucos?
não
definitivamente não
fomos muitos
fomos os que desde sempre
sabem que os caminhos são duros
quando conquistados
mas valem a pena ser percorridos
por isso mesmo
em coimbra foram poucos
os que fizeram falta
aos muitos
que disseram bem alto:
a rua é nossa
a dívida não