amar o vento
e deixá-lo
ser
ser livre
é nada
querer prender
era tempo de mar
ti miguel
tempo de ser ainda
tempo de todos os nós
tempo
tempo que passou
no corpo
quantas vezes
era tempo de mar
ti miguel
tempo que não
apagou o sorriso
a amizade
será sempre
tempo de mar
ti miguel
que os amigos
não deixam de o ser
só porque
o tempo
fez das suas
torreira; companha do marco; 2010
falarei ainda das aves quando te disser que mais belas não vi estranhos barcos estes de tão belos que meninas mulheres são desta laguna onde o mar se aconchega para ser criança as palavras não cabem no esplendor das velas só o silêncio nelas se acolhe para ser mais nosso deslumbrante de tanto falo ainda das aves amanhã em bando voarão mais uma vez até quando?
(regata da ria; 2011)
havia
na casa velha
uma janela por onde a lua
havia
na casa velha
uma porta por onde o sol
havia
na casa velha
alguém que guardava a luz
na cegueira de não deixar ver
vieram
da casa velha
com aromas gastos
sabores amargos
bolorentas palavras
sinistra gente esta
que aqui chegou com mansos passos
de coelho ditos
urge fazer a ouvir
a canção que para outros feita foi
“ei-los que partem…”
sorriremos então
partir, álvaro
partir sempre que destino
haverá onde
uma praia um areal imenso
partir sem saber
um cais não é casa
é porta aberta
e eu vou sair
carta, álvaro
nem de prego quero
rotas muitas
destinos tantos
mar por todo o lado
isso sim
partir, álvaro
pura e simplesmente
partir
soltar amarras e
o que for
não há-de vir
um homem só morre
quando desistir
há homens no mar
homens
nem os mais pobres
dos pobres
nem os mais bravos
dos bravos
homens
na areia da praia
gaivotas debicam restos
sem outra arte
que a de saber esperar
há homens no mar
deixem-nos ser
deixem-nos ganhar