mãe


 

a mão estendida

 

o sorriso

 

a carícia

 

o estar ali sempre

 

mesmo se

 

 

 

a tua

 

a minha

 

as nossas

 

 

 

mãos

 

vidas

 

olhos

 

 

 

o teu nome

 

senti-lo nos lábios

 

como se tu

 

em mim

 

dizer-te é ter-te

 

 

 

tiveste-me

 

para que te

 

tivesse

 

e em mim fosses

 

 

 

mãe

 

como sou pequenino

 

coimbra_1 de maio de 2013


 

Dificuldade de governar

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo 
Como é difícil governar. Sem os ministros 
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima. 
Nem um pedaço de carvão sairia das minas 
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda 
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra 
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol 
Sem a autorização do Führer? 
Não é nada provável e se o fosse 
Ele nasceria por certo fora do lugar. 

2

E também difícil, ao que nos é dito, 
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão 
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem. 
Se algures fizessem um arado 
Ele nunca chegaria ao campo sem 
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem, 
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que 
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural? 
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas. 

Se governar fosse fácil 
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer. 
Se o operário soubesse usar a sua máquina 
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas 
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários. 
E só porque toda a gente é tão estúpida 
Que há necessidade de alguns tão inteligentes. 

Ou será que 
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira 
São coisas que custam a aprender?

 

(Bertold Brecht)

 

somos a afirmação


 

 

fabricamos o tempo

o nosso tempo

com a música dos gestos

suspensos

no exacto instante em que

vindos do silêncio onde habitavam

nos cercearam as vozes

 

somos ainda o haver amanhã

um dia de sol aberto a todos

não o impossível sonhado

mas o real a que estamos condenados

pelo facto de sermos

 

estamos

ali onde palavra e gesto se confundem

não temos medos nem donos

mais muitos mais

crescemos a cada dia

 

somos a afirmação da recusa

 

uma criança a sorrir abril


cravos de abril

cravos de abril

 

trazer abril no peito

senti-lo sorrir

senti-lo chorar

a raiva e a alegria

no mesmo abraço

 

basta

um cravo ao peito

um cravo no peito

um cravo apenas

 

olho os peitos

as lapelas

que aos cravos devem

o estarem

e não os vejo não os vejo

 

na mão de uma criança

um cravo sorri

sorriso puro

de puro abril

primavera de um tempo outro

 

sorrio também

tenho uma criança dentro de mim

a sorrir abril

 

não trago novas


cais do chegado, murtosa

 

não trago novas

não as sei

há muito que caminho

tudo se repete

na ilusão

 

não trago novas

os nomes fui-os deixando

sobram alguns rostos

olhares mãos

palavras poucas

 

não trago novas

há muito que caminho

só isso sei

caminhar e perder-me

e é tanto

 

o pescador subirá para a bateira

onde o camarada o aguarda

partirão ambos a fazer a maré

eu

eu ficarei no cais mais um pouco

e regressarei a casa

 

são assim os dias

mesmo aqueles em que

não trago novas

(chegado, murtosa)

filhos da terra


 


habitam o silêncio
com a naturalidade das flores
por debaixo do sol

são

abrem caminhos que nunca
percorrerão
fazedores de tanto
com pouco se sabem por aí

deles dizem
“o país profundo”
sem eles pergunto-vos:
que país?
que mundo?

uma nota breve
no jornal da terra
tarja negra
uma sineta pelas ruas
um nome a quem pergunta
isso são

até lá
bebem o sol
habitam o silêncio

Poema de ahcravo

zé serra


 

zé serra

zé serra

 

 

caixas no mar lavadas
leito último do carapau
onde o serem dele rasas
dirá quanto o lanço deu
em peso aproximado

nunca o valor em dinheiro
que esse só na lota
os compradores
quantas vezes combinados
em pouco mudarão o muito
em quase nada o tanto suado

dirás no mercado ao vê-lo
em cima da pedra a brilhar
que o peixe é caro
o preço elevado
e te sentes roubado

serás então igual ao pescador
mais um
na cadeia da exploração
de um outro mercado

 

(torreira, à memória do arrais zé murta, 2009)