a mão estendida
o sorriso
a carícia
o estar ali sempre
mesmo se
a tua
a minha
as nossas
mãos
vidas
olhos
o teu nome
senti-lo nos lábios
como se tu
em mim
dizer-te é ter-te
tiveste-me
para que te
tivesse
e em mim fosses
mãe
como sou pequenino
Dificuldade de governar
1
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.
2
E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
3
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
4
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?
(Bertold Brecht)
fabricamos o tempo
o nosso tempo
com a música dos gestos
suspensos
no exacto instante em que
vindos do silêncio onde habitavam
nos cercearam as vozes
somos ainda o haver amanhã
um dia de sol aberto a todos
não o impossível sonhado
mas o real a que estamos condenados
pelo facto de sermos
estamos
ali onde palavra e gesto se confundem
não temos medos nem donos
mais muitos mais
crescemos a cada dia
somos a afirmação da recusa
trazer abril no peito
senti-lo sorrir
senti-lo chorar
a raiva e a alegria
no mesmo abraço
basta
um cravo ao peito
um cravo no peito
um cravo apenas
olho os peitos
as lapelas
que aos cravos devem
o estarem
e não os vejo não os vejo
na mão de uma criança
um cravo sorri
sorriso puro
de puro abril
primavera de um tempo outro
sorrio também
tenho uma criança dentro de mim
a sorrir abril
não trago novas
não as sei
há muito que caminho
tudo se repete
na ilusão
não trago novas
os nomes fui-os deixando
sobram alguns rostos
olhares mãos
palavras poucas
não trago novas
há muito que caminho
só isso sei
caminhar e perder-me
e é tanto
o pescador subirá para a bateira
onde o camarada o aguarda
partirão ambos a fazer a maré
eu
eu ficarei no cais mais um pouco
e regressarei a casa
são assim os dias
mesmo aqueles em que
não trago novas
(chegado, murtosa)
habitam o silêncio
com a naturalidade das flores
por debaixo do sol
são
abrem caminhos que nunca
percorrerão
fazedores de tanto
com pouco se sabem por aí
deles dizem
“o país profundo”
sem eles pergunto-vos:
que país?
que mundo?
uma nota breve
no jornal da terra
tarja negra
uma sineta pelas ruas
um nome a quem pergunta
isso são
até lá
bebem o sol
habitam o silêncio
Poema de ahcravo
caixas no mar lavadas
leito último do carapau
onde o serem dele rasas
dirá quanto o lanço deu
em peso aproximado
nunca o valor em dinheiro
que esse só na lota
os compradores
quantas vezes combinados
em pouco mudarão o muito
em quase nada o tanto suado
dirás no mercado ao vê-lo
em cima da pedra a brilhar
que o peixe é caro
o preço elevado
e te sentes roubado
serás então igual ao pescador
mais um
na cadeia da exploração
de um outro mercado
(torreira, à memória do arrais zé murta, 2009)