o reflexo de ti


nocturno na ria
 
procura a
a beleza
essa que te recusas a
existe
onde tu
 
nada é
tudo pode ser
em ti a escolha
o querer
 
há luz
por dentro do silêncio
da noite
é a mais pura
a mais bela
a mais tua
 
não digas que não
sem saberes se
sem te procurares
o reflexo de ti
és tu ainda
 
saberás vê-lo?
 
(torreira; marina dos pescadores)
 
 

serem aqui gente


as mulheres-meninas da torreira

 

mulheres-crianças-meninas

ao peso das redes e das cordas

crescem na areia

beijando o mar

 

sabem das férias

o sabor a sal

a escamas no rosto

o corpo inteiro é

 

resistem

que mais se lhes não pede

não as chamam

vêm

não lhes pedem

fazem

 

crianças-meninas-mulheres

sorriem brincam são mais

no serem aqui

gente

 

(torreira; companha do murta)

sorri para ti


a porta

abre a porta

todas as portas fechadas

esperam por ti

o braço inicia o movimento de

a mão

 

onde antes silêncio sombra

pesos insuportáveis

súbito se transmutam

a porta abriu-se

tu

 

deixa os pés irem

pela casa caminhas

descobres

teia a teia desfazes

a arte das aranhas dobrada

ao peso do pó e do tempo

 

abre a porta

sorri para ti

(s. pedro do sul; serra da gralheira; covas do monte)

anda


 

porque me prendes?

 

deixa-me ser

eu sou tu dentro de ti

não me ouves?

não me sentes?

não me ignores

 

sou eu, não me negues

sou tu, deixa-nos voar

somos tão leves

porque me prendes assim?

tens medo?

 

anda, vamos

tu, eu, nós

 

tão simples

se abrires as janelas de ti

espreitares lá para dentro

e sairmos as duas

de novo

como quando éramos uma só

 

anda

vamos saltar à corda

da vida

só o futuro


em arganil

 
falo da fronteira
do limite
ali onde tu
tens de
 
nenhum caminho
é
mas caminho farás
se
 
nasceste quando
para seres o que ès?
quantas vezes
morreste
no caminhar para ti?
 
sabe-lo?
 
o candeeiro
dá luz e sombra
também tu
na fronteira de ti
 
a cada passo dado
um passo deixado
procura as pegadas
vê-te nelas
 
mas nunca te esqueças
que o futuro
é o teu destino
 
(arganil)
 
 

no acto de ser


assassinado e belo

 

nada

é tão límpido e transparente

como tu

se

 

vês a cidade

tremer nas águas

que imaginas límpidas e puras

engano teu

 

espelho

velho gasto e assassinado este

que os olhos te ofertam

 

o teu silêncio cúmplice

a fome do lucro

o desprezo pela terra mãe

tudo isso

o matou aos poucos

 

transparente e límpido

só tu

se te souberes

e fores

no acto de ser

 

(aveiro; canal principal)

 

 

ama tudo


à tona da maré

 
o sorriso
na face
à tona
dos dias
 
nada é tão
pesado
como a tristeza
de não ser
 
canta
o estares aqui
mesmo se
 
és
nada mais
que tu
aceita-te
mas não desistas
de ser mais
 
sem pressas
sem angústias
acorda os dias
em que estás
por vezes
sem saberes como
 
sorri
e ama tudo
que tudo
é
 
(murtosa; bico)