dói-te o lembrares
o teres esquecido também
ambos porém são memória
no instante em que és
a serenidade
está no aceitares
és o que foste
essa é a memória
o mais
será quando
esquece
(figueira da foz)
mulheres-crianças-meninas
ao peso das redes e das cordas
crescem na areia
beijando o mar
sabem das férias
o sabor a sal
a escamas no rosto
o corpo inteiro é
resistem
que mais se lhes não pede
não as chamam
vêm
não lhes pedem
fazem
crianças-meninas-mulheres
sorriem brincam são mais
no serem aqui
gente
(torreira; companha do murta)
abre a porta
todas as portas fechadas
esperam por ti
o braço inicia o movimento de
a mão
onde antes silêncio sombra
pesos insuportáveis
súbito se transmutam
a porta abriu-se
tu
deixa os pés irem
pela casa caminhas
descobres
teia a teia desfazes
a arte das aranhas dobrada
ao peso do pó e do tempo
abre a porta
sorri para ti
(s. pedro do sul; serra da gralheira; covas do monte)

foto de Sent me free_blandisca http://fotogenicos.net/novagaleria/showphoto.php/photo/2740/title/set-me-free-21/cat/517
porque me prendes?
deixa-me ser
eu sou tu dentro de ti
não me ouves?
não me sentes?
não me ignores
sou eu, não me negues
sou tu, deixa-nos voar
somos tão leves
porque me prendes assim?
tens medo?
anda, vamos
tu, eu, nós
tão simples
se abrires as janelas de ti
espreitares lá para dentro
e sairmos as duas
de novo
como quando éramos uma só
anda
vamos saltar à corda
da vida
nada
é tão límpido e transparente
como tu
se
vês a cidade
tremer nas águas
que imaginas límpidas e puras
engano teu
espelho
velho gasto e assassinado este
que os olhos te ofertam
o teu silêncio cúmplice
a fome do lucro
o desprezo pela terra mãe
tudo isso
o matou aos poucos
transparente e límpido
só tu
se te souberes
e fores
no acto de ser
(aveiro; canal principal)