mais um


agostinho trabalhito (canhoto)

 
dir-te-ão as bibliotecas
onde
os livros mais raros
se
 
do mar encontrarás
muitos
 
ficarás a saber
das marés e das ondas
dos fundos das planícies
das montanhas e dos abismos
que esconde
 
gastarás neles os olhos
e, quiçá, escreverás também tu
mais um livro
a juntar a tantos outros
 
porém
nada terás lido sobre o mar
se não fores capaz
de ler o rosto de um pescador
 
pensar-te-ás sabedor
na tua ignorância letrada
mais um
 
(torreira, companha do marco, 2010)

vai


ao fundo o mar

 
o despedir do sol
não é o despedir da beleza
procura dentro de ti
a luz que lá fora se
despede
 
tu és a luz
o caminho
também és tu
escuta-te
aprende-te
sê-te
 
desconheces-te tanto
é tempo de
caminhares para ti
no ir para o outro
 
as tuas mãos
acendem-se
ardem
são caminhos
de luz
 
vai

de passagem


agora é

o sábio

escuta o silêncio

lê na luz

estende as mãos à chuva

a verdade é-lhe estranha

aceita

a procura de

sempre

 

o sábio

sabe que não sabe

dorme por fora apenas

por dentro

no silêncio da sombra iluminada

tudo nasce e existe

 

o sábio

sabe ser agora

é essa a sua única sabedoria

se lhe perguntares

o que sabe

 

está de passagem

sempre

 

(buarcos)

vencer o mar (III)


praia de mira; companha do zé monteiro; barco de mar, s. josé

 
ainda o sol não
já o arrais lê o mar
na pauta das ondas
estuda ritmos e pausas
lisos, lhes chama
 
afinada a companha
estudada que está a sinfonia
todos a executam a seu mando
vão seguros
ao encontro do inesperado 
 
aprenderam a ler o mar
antes das primeiras letras
sem o saberem
deixam escrito na espuma dos dias
um canto imenso à grandeza
de ser homem aqui
onde por vezes parece que já não
 
 
 
 
 


 

migalhas lixo

pombos tempo

pelo chão espalhados

memórias e

 

penso-me

não sei se ainda

porquê assim?

onde eu?

pesa-me ser

 

 

uma mão

uma ternura

um abraço

uma refeição quente

com amor dentro

 

os pombos

arrulham em bando

e eu

eu espero coisa nenhuma

apenas

isto de ser companheira

de mim