eu sou a casa


uma vela, apenas isso

 

estar em casa

é estar em mim

 

aqui a música é minha

sou eu

que a escrevo com palavras

que a desenho

na pauta do corpo

 

encontrar-me-ás

sempre em casa

porque eu sou a casa

tijolo a tijolo erguida

a partir do chão sentida

 

encosto ouvido ao mar

batem-me à porta

fico na dúvida

se não serei eu lá fora

 

entra

a casa é humilde

sem decorações avulsas

enchem-na a memória

livros, discos, rabiscos

 

eu

eu sou a casa

que mais querer então?

memória do além tejo_encontro de olaria do redondo_junho 1981


 

 

quanto ficou por dizer

em tudo o que fizemos

 

bêbados de alegria

percorríamos as ruas

as tascas eram o santuário

do nosso encontro

 

dáva-mo-nos as mãos como velhos amigos

tudo partilhámos

sabido que é

que tudo quanto é belo

cedo morre de loucura

 

com a mesma sofreguidão

com que virávamos cervejas

sorvemos estes dias que recordo

como se fossem anos

e fizeram de cada um

um outro ainda muito diferente

só porque soubemos estar  juntos

 

(30 anos depois, a memória dos dias vive)

meditação breve


o caminho é a aventura

não sou

tudo o que quero

mas

quero ser

tudo o que sou

recuso-me a não ser

o que em mim é do que fui

 

serei sempre o ter sido

isso é ser

 

os dias caem sobre os dias

a bateira voga silenciosa

como se

algo mais que ela própria

madeira trabalhada por mãos sábias

que outras mãos

sábias também de outra arte

continuam

 

olho em frente

procuro um caminho por fazer

persigo a aventura

toca-me


 

(toca-me que tenho medo_sofia carvalho_blandisca)

 

sinto-me tão indefesa

tão só em mim

quero apenas

que me toques

um sentir-te

mesmo que não sintas

 

tenho medo do escuro

de ser tão pequena

e as noites tão grandes

 

lembras-te de quando me falavas

do sótão?

lembras-te do papão

que lá morava?

 

eu lembro-me

por isso tenho medo

(essas histórias não deviam existir

não deviam ser contadas)

 

toca-me agora

sim

toca-me agora que tenho medo

 

fragmentos de tempo


antes de

 

ainda não ouvi

a voz da sombra

clamando silêncio

 

ainda não vi

a luz dos cegos

na ponta dos dedos

nas asas das árvores

um pássaro ferido

voar para o céu

a terra escorrer sangue

de tão ferida

 

ainda não vi

o coração da pedra

sorrir à criança triste

 

tudo isto porém sinto

como a areia a onda

antes de

balanço 60


eu ao colo da minha avó benedita

 

há quem nasça continente

eu nasci arquipélago

 

artes e ofícios muitos

de tudo um pouco

em tudo quase nada

o mesmo

agarrar pontas e atá-las

depois mais um nó

novas pontas sempre

em busca de outro nó

a desfazer também

 

sol e mar

inquietações de barco ancorado

angústias de infinito

e um infinito de angústias

 

uma praia

onde conchas ouvem peixes

murmúrios de ondas

troncos naufragados

cordas redes fios

vómitos de mar

 

palavras

em busca de um sentido

sentindo que só a busca é

caminho

 

falei-me

que as palavras


tão leve e tão pesado, o tempo

 

que as palavras
te cheguem inteiras
sem pedras por dentro
nem lágrimas de terem sido

sejam o sorriso nas manhãs
em que eu já não esteja
e te falem de mim
do amor, do mar
da alegria que é estar vivo

que as palavras
te cheguem inteiras
como eu sempre

é tarde para


ainda

 

vivo assim

sentado a andar

à deriva neste tempo

a que pertenço e não me é

 

estranho-me de estar

mas estou sem me mudar

sou ainda a continuação

de uma juventude longe e perto

de um sonho por acabar

de um ser erecto

 

vivo assim

entre mim e eu próprio

num diálogo de passados e futuros

que se encontram no ser hoje

a raiva, a desilusão, a amargura

 

vivo assim

assim me queiram

ou não

é tarde para