ainda


o meu povo
 
as palavras
saem-me amargas
como amargos são estes dias
que me emprestaram

como cantar o amor
a beleza as árvores os rios
e as flores
num tempo avinagrado áspero
de desilusões

não sei ser só
nunca soube

estendo os braços
num abraço de palavras
sinto nos ossos que
este é o meu povo
mas não é um povo que seja seu
ainda

o instante


e, no entanto

 
de bolor
estes dias anoitecidos
bafientos
 
e
no entanto
há ainda o voo
não do moscardo
mas do homem
no
exacto instante
em que
poisado
em tábua frágil
se ergue sobre
o mar
 
nada existe
então
senão
o instante
o breve instante
suspenso do tempo
sem chão
aparente
 
em que tudo é
sem nada ser
 
o vento corre sobre as ondas
e os homens

te


nós

 

despires-me-te
magia de saber
onde o corpo é

querer dizer-te
e não saber o quê
porque silenciada a voz
no sentir intenso de

caminhas por nós
caminhamos somos
erguem-se aquietadas
flores em botão
ansiosas por

bebe-mo-nos
a sede
e ficamos em silêncio
enquanto os corpos
cantam a música da vida

despires-te-me
te

vem empurrar o sol


ainda há luz

 

anda

vem empurrar o sol

 

como são frios estes dias

gela-se por dentro

como se devagar fossemos

morrendo

e vamos, sabemo-lo,

mas podia ser de outro modo

 

como são pesados estes tempos

que tempos são estes

que não os queremos para ninguém?

 

as mãos

sonhos por dentro da concha

a aquecer um sol longe

 

rente à areia um vento ácido

tudo leva

sequer as gaivotas ficaram

casulos de penas com pernas

 

há um sonho de criança

poisado nestes dias

um luto na voz

 

porém

se empurrarmos o sol

as nuvens quebram-se ao peso da luz

 

fui de novo


de novo

escrevo o tempo
onde me inscrevo
gravadas na pedra dos dias
as palavras

inscrevo-me
em lado nenhum
não sigo qualquer escola
que não a do coração
a saltar-me para as palavras

estou
definitivamente estou
por mais incómodo
estou

não me inscrevam
em movimentos
inscrevam-me, isso sim,
no movimento
pois estou vivo
em todos os sentidos

agora mesmo
escrevi e fui de novo

recuso


  

a minha voz é vento

o meu olhar é luz

semeio sem saber se colho

 

recuso a caverna

onde vivos enterrados

recuso a cama

de cartão com gente dentro

recuso a mão estendida

na sede uma moeda

 

recuso o silêncio

espantado de não haver bocas

para tantas palavras retidas

recuso olhos sôfregos

nas montras onde só pão

 

recuso a desilusão amarga

consentida do ter de ser

recuso os sorrisos bolorentos

da caridadezinha

a distribuir o que a mais

 

recuso

porque quero diverso

este estar aqui

tão efémero e tão sofrido

para tantos

as coisas elementares


indiferença de ser rio

 

falo das coisas mais
elementares

o sino da igreja
onde um galo não canta
um seixo rolado
guardando o tempo
dentro de si
um torrão de terra
grávido de uma semente

mais elementares ainda

os sorrisos presos nos lábios
das crianças tristes
as lágrimas
rios de salgados
nos leitos dos rostos abandonados
nos lares/depósitos

falo porque
estou cansado de comer silêncio
e ler poemas de amor
com tanto desamor
a caminhar por aí

as coisas mais elementares
são as que deviam ocupar
o ventre das palavras por parir

murmúrios


sobre a areia tábuas, nada mais que

de onde me vêm

estas vozes?

estes murmúrios?

 

trazidos pelo vento

caem sobre mim

como folhas de outono

também nós caímos

 

cairemos um dia

desfeitos em pó

palavras noutros

que o tempo levará também

 

o inverno

aproxima-se

sorrateiro abraça-me

 

deixa-me pendurado

de um beijo que não vem