e beijaram-se


bateira de caranguejo_chegado
deram-se as mãos
e caminharam
estava sol
por dentro também
há quanto tempo? 

pela estreita entrada
que a maré deixou
o pescador guia o barco
em busca do abrigo
do cais, do regresso
ansiado

 

deram-se as mãos
como há muito não
chegados que eram
de outros caminhares
perdidos no tempo

 

a bateira
vem pesada
caranguejo muito
a paga
sempre pouca
a vida cadela

 

deram-se as mãos
e beijaram-se

só se no mar


lagoa azul

 

do milheirão
a companha se dizia
lagoa azul
do barco o nome

venceram o mar
não venceram o tempo
foi-se a companha
jaz o barco em terra
no barracão envergonhado
de não ter mais mar

barco em terra deixado
é madeira afeiçoada e decorada
mas jamais
lhe poderás chamar barco
que mar não vê já

foram-se os homens
a outras companhas o pão
ganhar
que esta é a vida de quem nasceu
para ser homem só se no mar

(praia de mira; companha do milheirão; 2009)

 

balanço e não caio


um sobressalto no tempo

 

foram morrendo de cansaço
os dias pelo caminho
amigos também
os houve que

365 dias desde o primeiro
se disseram
segundo a segundo escutados

quantos segundos tem um ano?
difícil a resposta
porém em cada um fomos
quantas vezes sem o sabermos
de tão distraídos estarmos
em fúteis coisas

passámos mais uma vez no tempo
consolando-nos ao dizer:
o tempo passou
ao menos que fôssemos
e teríamos sido tanto

façam as contas:
365X24X60x60
(trinta e um milhões
quinhentos e trinta e seis mil
segundos)
em que muitas vezes
não fomos primeiros

saibamos aproveitá-los melhor
em cada segundo sendo
os primeiros
em 2012

meditação de fim de ano


serenidade

 

acolhe-te em ti

és

 

sente tudo

como se tudo

fosses tu

e és

 

o reflexo

no espelho

sorri um sorriso intemporal

há gente

dentro do espelho

que desconhecias

és tu

 

todo o tempo

não é o tempo todo

no teu tempo

em cada instante

por mais ínfimo

 

uma voz sussurra

o teu nome

não o reconheces

estás longe de

és muito mais

és

 

no ser

assim

contigo

sou

iluminar o sonho


o mondego livre em formoselha

apetece-me nascer rio

abrir leitos rasgar margens

destruir a

desilusão deste ser aqui

ainda assim

 

apetece-me nascer rio

levar na corrente pedras rochas calhaus

desnudar raízes

arrancar árvores velhas podres de poderes

asmáticos

 

apetece-me nascer rio

limpar terras de vermes cobertas

rastejantes seres erectos

escamosas barrigudas mentes

pesporrenta gente

sabuja

 

hoje

apetece-me nascer rio

há dias em que só a água

ilumina o sonho

recordo


reflectindo

 

sentado no banco
da memória
recordo

o brilho nos olhos
as caravelas velas pandas
das navegações sem retorno imaginado
o aroma das anémonas
sem terra à vista

a música a desprender-se
das coisas
sem pauta nem maestro nem instrumentos
a música de dentro
em clave de sol e sonho

braços por dentro de braços
e mais braços ainda
abraços tantos a abraçar

recordo

(ria de aveiro; canal de ovar; torreira; marina dos pescadores)

é urgente


o pescador filósofo

ando por aí
no inventar de caminhos
encontros e desencontros
fabricando sonhos
nas noites diurnas

a acender fogos
no seio das rochas mais frias
para que nasçam rios cheios
de olhos abertos

a plantar árvores
em cima do mar
ver crescerem barcos
onde mais que homens são
os que lá dentro vão

na minha rede só letras
plantadas nos regos abertos pela enxada
desta cabeça imparável

acender lume nas pedras
abrir olhos nos rios

é urgente

(torreira; companha do marco; 2011)