o teu dia


súbito és

hoje é o teu dia
todos os dias
são o teu dia

mesmo que não
o saibas
mesmo que eu
não te saiba

todos os dias
são o teu dia

não sei quem és
não preciso
sei que existes
e por isso
somente por isso

todos os dias
são o teu dia

sussurra o teu nome
existes
tanto basta
para que o dia seja teu
sê nele

pés


pés de peixe

 

deixa que te fale
dos pés
dos caminhos que abrem
dos desejos que constroem
dos amores que perseguem

deixa que fale
dos pés
tão lá em baixo
de nós
tão esquecidos

porém
deixa que te fale deles
e te diga
o nome de todos os dedos
e porque nos ligam à terra
à sua parte inferior
lhe chamaram planta

trata-os com amor
e deixa que te levem
pelos trilhos invisíveis
do sonho
onde ainda é possível
seres

recuso-me


caminho pelas dunas

recuso-me a cantar
o outono
celebrarei sempre
o verão
mesmo se já não

o outono dos poetas
é o pó em cima do piano
onde já não há pautas
para músicas de dança

recuso-me
a dizer que quando os dias
diminuem e a noite cresce
me invade a serenidade
outonal pintada de oiro

pudesse eu sentar-me
ao piano que não tenho
e martelaria nas teclas
o meu grito de raiva
por o verão me ter
mais uma vez abandonado

quero sol e mar
o mais é insosso

sou


descanso

 

lembro
que me lembro
esquecendo
que me esqueci

a memória
é o esquecimento
do que não nos lembramos

falo deste estar aqui
ainda
sem saber porquê
aceitando o como
fazendo por ser

abraço
os dias e dentro deles
todos os que não esqueci
e nos que esqueci
a memória de o saber

deito-me
medito
e sou