o sabor do amor


ruínas

 

como eu vos amo

homem da rua
mulher sem leite
criança sem pão

como eu vos amo

velhos sem casa
doentes, sós
sem remédios
porque sem nada

como eu vos amo

vós que só jantais
uma malga se sopa
água onde não sei
o quê ferveu

como eu vos amo

espoliados de tudo
escravos do mísero
ordenado,
quase mendigado

mas
como eu gostava
de não ser preciso
este amor
como eu gostava

um país faremos


ser e expandir-se

é possível
sonhar
outro país

um país de gestos limpos
e olhos claros
o país de sophia

ombro a ombro
solidário
um país
sem fome de justiça
nem janelas com grades
nas bocas famintas

um país
onde amanhã apeteça
onde ser
não seja a dolorosa caminhada
dos dias
mas o prazer renovado de dizer:
aqui sou

um país
aberto ao mar do sonho
seja o país de todos
e não apenas de alguns

é necessário
querer esse país
a partir de hoje
a partir de ti
a partir de nós

o país que queremos
é o país que faremos

sou


mais que uma flor, uma rosa

 

sou

tudo o que fui

 

sou

todos os que antes de mim

fizeram com que fosse

 

sou

a continuação, nada mais

da memória dos meus

ainda aqui, porque eu também

 

serei

quando deixar de ter sido

nos que em mim encontraram

raízes para o serem

e me amarem

 

somos

todos os que antes de nós

cansados de existir

subiram à terra

descansam no mar

ou simplesmente são

esta necessidade permanente

de os continuar a amar

 

todos os dias

sou

todos

agora josé? lê drummond


tinha uma pedra

tinha uma pedra
no meio do caminho
o tempo passou
a chuva caiu
a ribeira encheu
o caminho
onde tinha uma pedra

o tempo não passou
o carlos também não
só passa com o tempo
quem não foi no seu tempo
drummond foi imenso
mais que uma pedra
drummond foi um rochedo
uma selva, um mar

drummond deixou-nos
mas nós não deixamos drummond
até nos deixarmos também

salvé drummond
que me deixas interrogando-me:
e agora josé?
que me deixas por te ter lido
vivido, sentido

agora josé?
continua a ler drummond

apenas rosas


o fim e o início

ofereço-te

o pouco que tenho

palavras limpas

sonhos claros

amor muito

 

nada mais tenho

que nada  mais sou

um seixo rolado

um quase não tempo

um livro por abrir

e tão gasto de ser lido

 

ofereço-te

o pouco tenho

antes que

já nada

 

sei do fim

não sei do início

nem creio que volte

 

estas dúvidas

estas inquietudes

estas angústias

guardo-as para mim

 

a ti

ofereço-te apenas rosas

tempo de ser pescador


barca s. josé_praia de mira_2009

é tempo de mar
será tempo de peixe
se peixe houver

é tempo de homens
tempo de ser
mesmo que peixe
não venha
mesmo que o saco
nada tenha

têm os homens
o saber que vão
sem saberem o quanto são
pois é deles natural
serem-no assim

é tempo de mar
é tempo de ser
pescador

(praia de mira; companha do zé monteiro)

ti antónio


ti antónio acabou

se tivesse que dizer dele

diria: o silêncio

 

parco de palavras

silencioso e metódico no gesto

homem de terra que de mar

já foi

 

o ti antónio

sempre me olhou assim

desconfiado

perguntando-se

(penso eu)

que fará este homem

com máquina fotográfica

aqui onde o que é preciso

são braços de trabalho?

 

tenho-o visto ultimamente

já um pouco acabado

não vai trabalhar na companha

mas não resiste ao “chamado do mar”

todos os dias caminha até ele

até onde as forças o deixam

para saber dos lanços

da faina

 

o ti antónio será acabou

de apelido

mas continua

pescador da torreira

no silêncio que sempre foi o seu

(torreira; 2006)

a marca


lareira ao ar livre

conhecemo-los
das feiras
das roupas e dos acessórios
de marca
por fora que por dentro sem
ela são

de terra em terra
de feira em feira
apregoam a qualidade dos seus produtos
a baixo preço

“é mais caro o crocodilo
que a t shirt”
mas é ele que vende
que os olhos dos outros
compram

uma marca nova
uma marca de marca
é uma marca que deixou de ser

mas os olhos vestem-se de marcas
que vêem
nesta sociedade de marca
que ninguém já quer comprar
tão má fama tem

vêem-na a ser vendida
pelos ciganos?
jamais
têm de ter confiança
no que vendem

(coimbra)