são estas as marcas do tempo
pegadas deixadas perpendicularmente
ao sonho
quem lá dentro morreu
nas paredes permanece
eternidade breve
sobre a rua se abrem
as janelas
onde estarás agora nicole?
o horizonte de mar
que conquistaste
perdeste-lo no regresso
à tua terra
aí, soube, partiste de vez
no meu horizonte
nicole
fica o teu rosto
com o sorriso sempre
a família longe
o abraço
a amizade
que só os homens como tu
ofereciam
onde quer que estejas
estás aqui
(companha do marco)
hoje é o teu dia
todos os dias
são o teu dia
mesmo que não
o saibas
mesmo que eu
não te saiba
todos os dias
são o teu dia
não sei quem és
não preciso
sei que existes
e por isso
somente por isso
todos os dias
são o teu dia
sussurra o teu nome
existes
tanto basta
para que o dia seja teu
sê nele
deixa que te fale
dos pés
dos caminhos que abrem
dos desejos que constroem
dos amores que perseguem
deixa que fale
dos pés
tão lá em baixo
de nós
tão esquecidos
porém
deixa que te fale deles
e te diga
o nome de todos os dedos
e porque nos ligam à terra
à sua parte inferior
lhe chamaram planta
trata-os com amor
e deixa que te levem
pelos trilhos invisíveis
do sonho
onde ainda é possível
seres
recuso-me a cantar
o outono
celebrarei sempre
o verão
mesmo se já não
o outono dos poetas
é o pó em cima do piano
onde já não há pautas
para músicas de dança
recuso-me
a dizer que quando os dias
diminuem e a noite cresce
me invade a serenidade
outonal pintada de oiro
pudesse eu sentar-me
ao piano que não tenho
e martelaria nas teclas
o meu grito de raiva
por o verão me ter
mais uma vez abandonado
quero sol e mar
o mais é insosso
lembro
que me lembro
esquecendo
que me esqueci
a memória
é o esquecimento
do que não nos lembramos
falo deste estar aqui
ainda
sem saber porquê
aceitando o como
fazendo por ser
abraço
os dias e dentro deles
todos os que não esqueci
e nos que esqueci
a memória de o saber
deito-me
medito
e sou