poesia
saber de si
tempo de dúvidas e de certezas
(sou o quê?)
somos mais que o que julgamos
ou menos que o que de nós pensam?
que pensamos de nós?
que somos nós para pensar?
habito a dúvida
perdi o número da porta
esqueci o andar
não tenho telefone
vagueio algures
não me digam nada
ou digam-me tudo
mas saibam como dizê-lo
ou calá-lo
sem ninguém de permeio
sem ninguém
ouviram!
o que eu sou
é uma questão nossa
ou só minha
porém se a queres tua
que o seja entre nós
sou
aquela imagem ínfima
na base de um espelho
de uma viela perdida
numa terra por entre serranias
também eu em busca de
só
isso
do amor
não
não te vou escrever
um poema de amor
primeiro porque não o sei
e, depois, porque o amor vive-se
ou se escrito outra coisa será
do amor
o escrever
é recriar o que poderia ter sido
ou inventar o desejo de ser
não
hoje apetece-me apenas estar contigo
não sabendo sequer se existes ou existirás
ficar assim no silêncio cúmplice
dos amantes
sem saber o que poderá acontecer
e que se acontecer
jamais será escrito
sim, hoje
apetece-me
só
estar contigo
só
o caminho das ondas
uma gota de água
a ternura
o abraço
a dádiva
uma gota de água
desliza no vidro
da janela
a ternura
é um substantivo
comum a dois
uma gota de água
suspensa
treme
o abraço
é um substantivo
incomensurável
uma gota de água
teimosa
cresce
a dádiva
é um substantivo
incomum a muitos
numa gota de água
quantos somos?
a leveza da luz
que sustem o homem?
onde a água é luz
vai pela beira da ria
caminha sem pressas de cidade
o tempo parou por momentos
para seres e estares
escuta as cores
sente como a música se desprende delas
e se faz em ti
a sinfonia que nunca sonhaste poder ser
não interrogues a ria
deixa que ela te fale e te encontre
ali onde os olhos mergulham
na superfície das coisas
para lhes encontrar a raiz
és
o encontro de ti
contigo
aqui onde as cores
são música
e a água é luz
(marina dos pescadores; torreira)









