é este o tempo dos cardos


tudo arde
 

pelo chão gravetos secos, comidos pelo sol

dizem o verde que houve. as rochas nuas

brilham a sede. o corpo busca na água a vida.

as moscas antecipam a putrefacção. o calor

esmaga no horizonte o azul. tudo é límpido

e simultaneamente vazio de sentido.

 

então digo: a morte circula nas veias um

sangue coagulado.

 

(memória de um tempo longe)

entende


casco velho

 

escrevo-te

de muito longe de mim

pairo algures

 

espero

espero sempre

um sopro de luz

uma concha, um búzio

uma flor entre folhas de palavras

um sorriso

 

escrevo-te

só para não estar só

só para ter a ilusão

de que existes

 

espero

que entendas

quando não receberes

o que não te envio