quando o mar trabalha na torreira


susana_neta manel matos

atentos olhos
escutam movimentos

esperam a voz
a ordem o mando

tensas as cordas
fechado o cerco
as redes iniciarão
o regresso

maestro desta música
o arrais olha o mar
sente as correntes
no deslizar das bóias

na sinfonia das redes
os andamentos
é o mar que os dita
o arrais quem os traduz

assim aprendi
música
neste areal de luz

(torreira; século XX)

súbito


vem voar comigo

súbito
o tempo caiu
sob o tempo
vergou-se

um sorriso
espreita
tímido
do rosto cansado

o corpo
esse animal outrora
desobediente
cede

súbito
é sempre assim
o que é
não sabe como
ser

súbito!
ergue-te
e caminha
o teu tempo
ainda não caiu
sobre ti

toma a minha mão
e vamos por aí
em busca do tempo
para o varrer
nem que seja
por mais um tempo

se soubesses


o peso feito

 

momentos há em
que o peso
dos dias se
sobrepõe
ao brilho da luz

momentos há em
que o peso da dor
se sobrepõe
à leveza de
estar vivo

momentos há em
que se soubesses
se soubesses mesmo
terias aprendido a voar

partirias então
leve
muito leve
sem peso
de mais nada
que não o de seres
assim

sem que
momentos houvesse em
que o peso
é demais
e carece de fim

(torreira; marina dos pescadores)

o tempo parou


sem moldura

o tempo parou

no umbral da porta
só a luz passou
coada, finíssima
tudo cobre
com a patine do tempo
em que o tempo
parou

tempos houve
em que fogo
gente, sopa
mesa, vinho
pão, calor

tempos
parcos de haver
fartos de partir

foram-se
levando com eles
a memória
e o tornar

parou o tempo
no exacto momento
em que a porta
passaram
prometendo
a si mesmos
que um dia
quem sabe
outra casa
farta e nova
ali fariam

não voltaram
para onde foram
aí ficaram
e o tempo

o tempo parou

(macieira; serra da gralheira; s.pedro do sul)

súbito


de dentro

ninguém é tão forte
quanto julga
ninguém é tão fraco
quanto parece

olha-te
antes
de veres

……

os rios
correm
para o mar

só eu
corro
sem destino

……

magoa-te

hoje
amanhã
serás imune

……

os dias
não pesam
tu neles

…..

acorda
comigo
não durmas

…..

quando
acordei
não eras tu

…..

o teu rosto
as minhas mãos
um poema

…..

eu sou
tu és
nós seremos?

…………

o óbvio
é
um espanto