sobre a areia
fundas as pegadas
dizem do peso
lentos caminhos estes
onde o corpo se verga
para se erguer para o mar
o fardo
digo
é pesado
mais pesada
porém
a fome
(praia de mira, companha do fatoco)
atentos olhos
escutam movimentos
esperam a voz
a ordem o mando
tensas as cordas
fechado o cerco
as redes iniciarão
o regresso
maestro desta música
o arrais olha o mar
sente as correntes
no deslizar das bóias
na sinfonia das redes
os andamentos
é o mar que os dita
o arrais quem os traduz
assim aprendi
música
neste areal de luz
(torreira; século XX)
súbito
o tempo caiu
sob o tempo
vergou-se
um sorriso
espreita
tímido
do rosto cansado
o corpo
esse animal outrora
desobediente
cede
súbito
é sempre assim
o que é
não sabe como
ser
súbito!
ergue-te
e caminha
o teu tempo
ainda não caiu
sobre ti
toma a minha mão
e vamos por aí
em busca do tempo
para o varrer
nem que seja
por mais um tempo
momentos há em
que o peso
dos dias se
sobrepõe
ao brilho da luz
momentos há em
que o peso da dor
se sobrepõe
à leveza de
estar vivo
momentos há em
que se soubesses
se soubesses mesmo
terias aprendido a voar
partirias então
leve
muito leve
sem peso
de mais nada
que não o de seres
assim
sem que
momentos houvesse em
que o peso
é demais
e carece de fim
(torreira; marina dos pescadores)
o tempo parou
no umbral da porta
só a luz passou
coada, finíssima
tudo cobre
com a patine do tempo
em que o tempo
parou
tempos houve
em que fogo
gente, sopa
mesa, vinho
pão, calor
tempos
parcos de haver
fartos de partir
foram-se
levando com eles
a memória
e o tornar
parou o tempo
no exacto momento
em que a porta
passaram
prometendo
a si mesmos
que um dia
quem sabe
outra casa
farta e nova
ali fariam
não voltaram
para onde foram
aí ficaram
e o tempo
o tempo parou
(macieira; serra da gralheira; s.pedro do sul)

ninguém é tão forte
quanto julga
ninguém é tão fraco
quanto parece
olha-te
antes
de veres
……
os rios
correm
para o mar
só eu
corro
sem destino
……
magoa-te
hoje
amanhã
serás imune
……
os dias
não pesam
tu neles
…..
acorda
comigo
não durmas
…..
quando
acordei
não eras tu
…..
o teu rosto
as minhas mãos
um poema
…..
eu sou
tu és
nós seremos?
…………
o óbvio
é
um espanto