poesia
é tarde para
vivo assim
sentado a andar
à deriva neste tempo
a que pertenço e não me é
estranho-me de estar
mas estou sem me mudar
sou ainda a continuação
de uma juventude longe e perto
de um sonho por acabar
de um ser erecto
vivo assim
entre mim e eu próprio
num diálogo de passados e futuros
que se encontram no ser hoje
a raiva, a desilusão, a amargura
vivo assim
assim me queiram
ou não
é tarde para
também o sol
construo meticulosamente
o silêncio
formiga dos dias
carreio palavras
curvados os ombros de ser
peso
do senti-las assim
tão minhas, tão eu
navego em sensações
procuro não naufragar
de tanto
agarro-me a mim
sou-me cada vez mais
não me perguntes se
o sol se põe
se nasce
ou se é apenas a lua
é
fui eu que o fiz assim
na construção
do silêncio
as palavras
volvem-se em sons
ininteligíveis
também o sol
(buarcos)
ser só ser
no lento saborear deste estar aqui longe e perto de ser só ser só trazer na língua o sal roubado algures ter tudo sem nada querer possuir e ser feliz por ser assim olhar tudo e tudo ser na alegria plena de estar vivo e ver as cores bailam-me diante dos olhos são rios que nascem sem ânsias de foz sorrio por entre as nuvens dos dias inúteis no lento saborear deste aqui estar
(torreira; 2011)
memórias da gralheira
o sonho
dois anos
não me lembro do tempo
em que não fazia anos
sequer dos primeiros que fiz
era criança e bebia os dias
ignorava que somando-os
o resultado era: ano
não sei quando comecei
a fazer anos
continuo a não me lembrar
um ano houve porém em que devo ter
começado
desde então continuei o que não soube
e pararei sem saber, ainda, quando
dois anos
quantos dias são?
sabê-lo-ás quando um dia
no banco de uma qualquer escola
te disserem da soma dos dias
e um sorriso de seres gente
nos lábios
agora sorris somente
choras, fazes birras,
aprendes as primeira palavras
as imitações, as brincadeiras
cantas
és feliz sem o saber
e nisso reside
a verdadeira felicidade
dois anos
há quantos anos eu tive dois anos
eu sei
só não sei como foi
esse dia
e sou feliz na mesma
porque meus pais
nesse dia o foram
como eu, avô, o sou hoje
só queria dar-te um beijo
mas um dia, quando maior fores,
ler-te-ão estas palavras
e, quem sabe, também tu
não te lembrarás da festa
do dia em que fizeste dois anos
o inesperado
só isso
gorduroso o tempo
pega-se-me às mãos
não
não te invento nome
nem corpo, nem ser
deixo-te estar assim
no limbo da imaginação
sossegadamente desassossegando-me
as palavras
não serão nada
onde tu fores
por isso
para quê gastá-las na invenção
de um tu?
estamos apenas
e nisso somos tanto
que se fôssemos de facto
o que seríamos?
esfrego as mãos na areia
onde nascem conchas e seixos
e aí
busco o sol
enquanto te espero
os dias
fazem-se de dias
só isso
quem trabalha ganha pouco
quando o mar é fêmea
enche-se o saco
de carapau
enchem-se os homens
de esperança
quantas vezes a morrer
breve na lota
onde os compradores
entre cafés e cigarros
aguardam o fruto do suor
para o beberem em copos de bom vinho
também no mar
há quem trabalhe e ganhe pouco
sendo de poucos
a riqueza que o mar dá
um saco em leque
com que se abanam os revendedores
isso é
(praia de mira; companha do fatoco)









