sou


mais que uma flor, uma rosa

 

sou

tudo o que fui

 

sou

todos os que antes de mim

fizeram com que fosse

 

sou

a continuação, nada mais

da memória dos meus

ainda aqui, porque eu também

 

serei

quando deixar de ter sido

nos que em mim encontraram

raízes para o serem

e me amarem

 

somos

todos os que antes de nós

cansados de existir

subiram à terra

descansam no mar

ou simplesmente são

esta necessidade permanente

de os continuar a amar

 

todos os dias

sou

todos

agora josé? lê drummond


tinha uma pedra

tinha uma pedra
no meio do caminho
o tempo passou
a chuva caiu
a ribeira encheu
o caminho
onde tinha uma pedra

o tempo não passou
o carlos também não
só passa com o tempo
quem não foi no seu tempo
drummond foi imenso
mais que uma pedra
drummond foi um rochedo
uma selva, um mar

drummond deixou-nos
mas nós não deixamos drummond
até nos deixarmos também

salvé drummond
que me deixas interrogando-me:
e agora josé?
que me deixas por te ter lido
vivido, sentido

agora josé?
continua a ler drummond

apenas rosas


o fim e o início

ofereço-te

o pouco que tenho

palavras limpas

sonhos claros

amor muito

 

nada mais tenho

que nada  mais sou

um seixo rolado

um quase não tempo

um livro por abrir

e tão gasto de ser lido

 

ofereço-te

o pouco tenho

antes que

já nada

 

sei do fim

não sei do início

nem creio que volte

 

estas dúvidas

estas inquietudes

estas angústias

guardo-as para mim

 

a ti

ofereço-te apenas rosas

tempo de ser pescador


barca s. josé_praia de mira_2009

é tempo de mar
será tempo de peixe
se peixe houver

é tempo de homens
tempo de ser
mesmo que peixe
não venha
mesmo que o saco
nada tenha

têm os homens
o saber que vão
sem saberem o quanto são
pois é deles natural
serem-no assim

é tempo de mar
é tempo de ser
pescador

(praia de mira; companha do zé monteiro)

ti antónio


ti antónio acabou

se tivesse que dizer dele

diria: o silêncio

 

parco de palavras

silencioso e metódico no gesto

homem de terra que de mar

já foi

 

o ti antónio

sempre me olhou assim

desconfiado

perguntando-se

(penso eu)

que fará este homem

com máquina fotográfica

aqui onde o que é preciso

são braços de trabalho?

 

tenho-o visto ultimamente

já um pouco acabado

não vai trabalhar na companha

mas não resiste ao “chamado do mar”

todos os dias caminha até ele

até onde as forças o deixam

para saber dos lanços

da faina

 

o ti antónio será acabou

de apelido

mas continua

pescador da torreira

no silêncio que sempre foi o seu

(torreira; 2006)

a marca


lareira ao ar livre

conhecemo-los
das feiras
das roupas e dos acessórios
de marca
por fora que por dentro sem
ela são

de terra em terra
de feira em feira
apregoam a qualidade dos seus produtos
a baixo preço

“é mais caro o crocodilo
que a t shirt”
mas é ele que vende
que os olhos dos outros
compram

uma marca nova
uma marca de marca
é uma marca que deixou de ser

mas os olhos vestem-se de marcas
que vêem
nesta sociedade de marca
que ninguém já quer comprar
tão má fama tem

vêem-na a ser vendida
pelos ciganos?
jamais
têm de ter confiança
no que vendem

(coimbra)

a cama


ler as mãos

 

sobre a mesa
a toalha
de plástico, gasta
vincada de tanto

uma sopa
um pão
e um amontoado de comprimidos

a rua entra pela porta
de rachas abertas ao frio e ao sol
a rua é ali também

sobre a mesa
a toalha
a do almoço
do jantar
(se houver)
sempre a mesma

a toalha
onde as lágrimas
escrevem com sal
uma vida gasta
cansada
de tanto

sobre a mesa
sobre a toalha de plástico
adormeceu
tinha vendido a cama