tempo de dúvidas e de certezas


curvas apertadas

(sou o quê?)

 

somos mais que o que julgamos

ou menos que o que de nós pensam?

que pensamos de nós?

que somos nós para pensar?

 

habito a dúvida

perdi o número da porta

esqueci o andar

não tenho telefone

vagueio algures

 

não me digam nada

ou digam-me tudo

mas saibam como dizê-lo

ou calá-lo

sem ninguém de permeio

sem ninguém

ouviram!

 

o que eu sou

é uma questão nossa

ou só minha

porém se a queres tua

que o seja entre nós

 

sou

aquela imagem ínfima

na base de um espelho

de uma viela perdida

numa terra por entre serranias

também eu em busca de

 

isso

do amor


sorriso

não

não te vou escrever

um poema de amor

primeiro porque não o sei

e, depois, porque o amor vive-se

ou se escrito outra coisa será

 

do amor

o escrever

é recriar o que poderia ter sido

ou inventar o desejo de ser

 

não

hoje apetece-me apenas estar contigo

não sabendo sequer se existes ou existirás

ficar assim no silêncio cúmplice

dos amantes

sem saber o que poderá acontecer

e que se acontecer

jamais será escrito

 

sim, hoje

apetece-me

estar contigo


o sol nas mãos

 

com o sol nas mãos
vou
desvairado
em busca do amanhecer

acordo as noites

as mãos
poisadas no corpo
fremente
atordoam-no

acordo as noites

sonho muito
sonho tudo
e não sou
nada

com o sol nas mãos
vou

o caminho das ondas


maria de fátima
 
curva-se o mar
à bravura dos homens
quebram-se sobre
o barco as ondas
e passam
 
seguem os homens
o seu destino
indiferentes
sabem que ainda não
 
um dia
cheios de tanto terem sido
será o último
ficará o vazio de não ser
alojado no não ir
 
o homem é
onde o mar também
 
(torreira; companha do marco; 2010)

uma gota de água


tantas gotas de água

 

a ternura
o abraço
a dádiva

uma gota de água
desliza no vidro
da janela

a ternura
é um substantivo
comum a dois

uma gota de água
suspensa
treme

o abraço
é um substantivo
incomensurável

uma gota de água
teimosa
cresce

a dádiva
é um substantivo
incomum a muitos

numa gota de água

quantos somos?


			

onde a água é luz


água luminosa esta

vai pela beira da ria
caminha sem pressas de cidade
o tempo parou por momentos
para seres e estares

escuta as cores
sente como a música se desprende delas
e se faz em ti
a sinfonia que nunca sonhaste poder ser

não interrogues a ria
deixa que ela te fale e te encontre
ali onde os olhos mergulham
na superfície das coisas
para lhes encontrar a raiz

és
o encontro de ti
contigo
aqui onde as cores
são música
e a água é luz

(marina dos pescadores; torreira)

o sabor do amor


ruínas

 

como eu vos amo

homem da rua
mulher sem leite
criança sem pão

como eu vos amo

velhos sem casa
doentes, sós
sem remédios
porque sem nada

como eu vos amo

vós que só jantais
uma malga se sopa
água onde não sei
o quê ferveu

como eu vos amo

espoliados de tudo
escravos do mísero
ordenado,
quase mendigado

mas
como eu gostava
de não ser preciso
este amor
como eu gostava

um país faremos


ser e expandir-se

é possível
sonhar
outro país

um país de gestos limpos
e olhos claros
o país de sophia

ombro a ombro
solidário
um país
sem fome de justiça
nem janelas com grades
nas bocas famintas

um país
onde amanhã apeteça
onde ser
não seja a dolorosa caminhada
dos dias
mas o prazer renovado de dizer:
aqui sou

um país
aberto ao mar do sonho
seja o país de todos
e não apenas de alguns

é necessário
querer esse país
a partir de hoje
a partir de ti
a partir de nós

o país que queremos
é o país que faremos