recordo


reflectindo

 

sentado no banco
da memória
recordo

o brilho nos olhos
as caravelas velas pandas
das navegações sem retorno imaginado
o aroma das anémonas
sem terra à vista

a música a desprender-se
das coisas
sem pauta nem maestro nem instrumentos
a música de dentro
em clave de sol e sonho

braços por dentro de braços
e mais braços ainda
abraços tantos a abraçar

recordo

(ria de aveiro; canal de ovar; torreira; marina dos pescadores)

é urgente


o pescador filósofo

ando por aí
no inventar de caminhos
encontros e desencontros
fabricando sonhos
nas noites diurnas

a acender fogos
no seio das rochas mais frias
para que nasçam rios cheios
de olhos abertos

a plantar árvores
em cima do mar
ver crescerem barcos
onde mais que homens são
os que lá dentro vão

na minha rede só letras
plantadas nos regos abertos pela enxada
desta cabeça imparável

acender lume nas pedras
abrir olhos nos rios

é urgente

(torreira; companha do marco; 2011)

ainda


o meu povo
 
as palavras
saem-me amargas
como amargos são estes dias
que me emprestaram

como cantar o amor
a beleza as árvores os rios
e as flores
num tempo avinagrado áspero
de desilusões

não sei ser só
nunca soube

estendo os braços
num abraço de palavras
sinto nos ossos que
este é o meu povo
mas não é um povo que seja seu
ainda

o instante


e, no entanto

 
de bolor
estes dias anoitecidos
bafientos
 
e
no entanto
há ainda o voo
não do moscardo
mas do homem
no
exacto instante
em que
poisado
em tábua frágil
se ergue sobre
o mar
 
nada existe
então
senão
o instante
o breve instante
suspenso do tempo
sem chão
aparente
 
em que tudo é
sem nada ser
 
o vento corre sobre as ondas
e os homens

te


nós

 

despires-me-te
magia de saber
onde o corpo é

querer dizer-te
e não saber o quê
porque silenciada a voz
no sentir intenso de

caminhas por nós
caminhamos somos
erguem-se aquietadas
flores em botão
ansiosas por

bebe-mo-nos
a sede
e ficamos em silêncio
enquanto os corpos
cantam a música da vida

despires-te-me
te

vem empurrar o sol


ainda há luz

 

anda

vem empurrar o sol

 

como são frios estes dias

gela-se por dentro

como se devagar fossemos

morrendo

e vamos, sabemo-lo,

mas podia ser de outro modo

 

como são pesados estes tempos

que tempos são estes

que não os queremos para ninguém?

 

as mãos

sonhos por dentro da concha

a aquecer um sol longe

 

rente à areia um vento ácido

tudo leva

sequer as gaivotas ficaram

casulos de penas com pernas

 

há um sonho de criança

poisado nestes dias

um luto na voz

 

porém

se empurrarmos o sol

as nuvens quebram-se ao peso da luz

 

fui de novo


de novo

escrevo o tempo
onde me inscrevo
gravadas na pedra dos dias
as palavras

inscrevo-me
em lado nenhum
não sigo qualquer escola
que não a do coração
a saltar-me para as palavras

estou
definitivamente estou
por mais incómodo
estou

não me inscrevam
em movimentos
inscrevam-me, isso sim,
no movimento
pois estou vivo
em todos os sentidos

agora mesmo
escrevi e fui de novo

recuso


  

a minha voz é vento

o meu olhar é luz

semeio sem saber se colho

 

recuso a caverna

onde vivos enterrados

recuso a cama

de cartão com gente dentro

recuso a mão estendida

na sede uma moeda

 

recuso o silêncio

espantado de não haver bocas

para tantas palavras retidas

recuso olhos sôfregos

nas montras onde só pão

 

recuso a desilusão amarga

consentida do ter de ser

recuso os sorrisos bolorentos

da caridadezinha

a distribuir o que a mais

 

recuso

porque quero diverso

este estar aqui

tão efémero e tão sofrido

para tantos