passou o tempo
não tu
ontem
foi quando?
quantos anos
tem um dia?
hoje és
ainda
a manhã
de mim
amanhã
de nós
guardo
(quantos dias depois?)
o teu nome
e sonho-te
sem te saber
reinvento-te
para ser
e já não somos
quantos anos
tem um dia?
quanto vale um americano?
20 chilenos?
100 árabes?
1000 africanos?
quantos vidas
vale um dólar?
“in god we trust”
pobre deus se existes
para onde te levaram
nada mais que uma moeda
de troca por sangue
com cheiro a fruta, a petróleo
há palavras
que são perigosas
a verdade quando escrita
ainda é mais perigosa
há palavras
que são a carne de um sonho
o esqueleto de uma utopia
a coluna vertebral de uma sociedade
escrevem-nas diariamente com sangue
os povos deste mundo
nas paredes da terra
para que, se outros mundos houver,
se saiba do que aqui se passa
porque compramos
o que os media
nos vendem
porque há quem só
compre o que os media
vendem
porque ainda há memória
não são só as torres gémeas
que hoje deveriam ser lembradas
mas também, e mais do que elas,
o golpe levado a cabo neste dia
por augusto pinochet
ao colo da cia
e da escola neo liberal de chicago
os “chicago boys”
porque a história
não pode ser reescrita em inglês
sempre
porque o sangue é o mesmo em todos
os seres humanos
porque hoje esquecem-se muitos
para lembrar uns poucos
eu quero aqui lembrar todos
os que morreram assassinados
torturados sinistramente
pelas mãos mais “limpas” deste mundo
pela verdade na história
pela história da verdade
(pequeno poema recordando satchmo)
o silêncio
dos teus olhos
que gritam
onde os rios?
as florestas?
a savana?
os teus olhos mortos
para a luz
trazem neles uma vida
onde a nossa se abre a outro
sol
na tua voz
na tua música
brilha o grito de uma raça
o desejo de paz e poemas
sem fome nem guerra
um mundo de que nos orgulhemos
e onde possamos, de facto, ouvir dizer:
what a wonderful world
em todas as línguas
salvé satchmo

(torreira; anos 90)
olho o peixe salta na rede estrebuchando na agonia do sufoco também isto devo aprender a linguagem da morte não me será jamais estranha gostaria de brincar com aqueles peixes prateados as minhas bonecas de menina vivas mas este não é lugar de brincar no meu rosto a mulher que deste tamanho já sou contempla o trabalho que a rede encerra em que participei com as migalhas que tinha para dar como são grandes estes dias! com eles cresço e fico maior mulher do mar (do meu livro "quando o mar trabalha")
(henrique da bóia; torreira; anos 90)
há quanto tempo não sonho afinal o mar não é de vinho e o ti borras nunca foi à américa ficámos onde nascemos lembro-me de criança ainda ajudar a minha mãe na escolha do peixe ver no meu pai o eu de amanhã as dunas eram então o meu esconderijo agachado no seu ventre espreitava o futuro era o mar que me chamava