na praia de mira, década de 70


peixeiras da praia de mira

sentadas
aguardam a separação do peixe

descansam os pés
para caminhos longos
corridas e gritos
no cantar

“é peixe do maaaar !”

sentadas
rezam para que a pesca
dê para o pão

eram estas as peixeiras

eram elas que nos traziam
peixe do mar
sardinha fresca
gordura a pingar

 

tão leve a partida?


 

vou com o vento
com ele cheguei
só há partida se

entendo agora
o que dizem das gaivotas:
não tenho peso
flutuo

todas as praias
são a minha praia
todos os mares
são o meu amar

parto e fico
e reparto-me
no ser assim
por caminhar ainda
onde já muitos

calçaram pantufas

 

o calinas


 

calinas (há quantos anos?)

olho-te nos olhos
e é como se perguntasse:
que fiz eu ?

aqui
onde a vida começa
com o nascer do sol
o queimar do sal

aqui
envelhece-se mais cedo

nas mãos sulcos rasgados
pelas cordas
que puxam as redes e os barcos

escamas de peixe
salpicam-me o rosto
brincar é escolher sardinha
aguentar a picada do peixe aranha
e não chorar

aqui
cresce-se depressa
a trabalhar o mar

(torreira)

a escolha


a escolha

é tempo agora
de escolher o peixe
separá-lo por tamanho
espécie
valor de mercado

toda a companha
se reúne em torno do estrado
do reboque do tractor

em tempos era na areia
mais tarde em cima de um oleado
hoje é mais frequente assim

depois há que lavar o peixe
colocá-lo nas caixas e levá-lo à lota
ou vendê-lo a algum veraneante
farto da carne urbana

assim se vive do mar
e se dá vida a quem o visita

(torreira_companha do marco)

lá fora a chuva


e eu?

um dia

sabes?

falaram-me da chuva

das poças de água

de molhar os pés

de brincar

 

mas a chuva é fria

os dias são escuros

os meninos à chuva

choram sem saber

porquê

e sequer são salgadas as lágrimas

escorrendo pelas faces

 

transidos os dedos

pedem carícias

de outras mãos mais

quentes

 

deixas-me aquecê-los?

 

foto de sofia carvalho:

http://www.facebook.com/album.php?aid=2065907&id=1340696876