as palavras estão vivas


 

o mar sempre

as palavras estão vivas

 

partirei com o sol e a minha loucura

para quê dizer adeus?

o regresso

o eterno regresso

é aquilo que resta

sempre que partimos

e eu não volto

 

partirei com o mar

clandestino

embarcarei em todos os navios

que cedo ou tarde se afundam

em praias longínquas

deixando os destroços

 

encontrarás então nas areias brancas

brancos os meus ossos

e lembrar-te-ás de mim

e do regresso

e da loucura

 

agora bebo no mar

as forças

para a grande viagem

 

memórias do além tejo (do baú)


                                                        parede de portalegre, 2007

 

não vos dou palavras

dou-vos pernas, braços e um coração naufragado

 

não vos dou palavras

dou-me a mim todo transubstanciado em poema

aceitem, se quiserem, as palavras que não vos dou

mas não aplaudam

o vosso espectáculo

são as minhas lágrimas, angústias e desesperos

 

não vos dou palavras

dou-vos  bofetadas que, por vezes, aceitais com um sorriso

porque o sorriso é a vossa reacção típica

 

e se eu não escrevesse ?

e se eu não vivesse de olhos abertos sobre cada dia

em cada dia suportando estar vivo

inventando searas e papoilas no deserto dos vossos olhos ?

 

e se eu pudesse dormir como vós descansadamente

com um policial ou um romance à cabeceira

e se eu me sentisse satisfeito com a telenovela

e me bastasse o mau gosto de um jantar num restaurante de três estrelas

“em boa companhia”

para ser feliz ?

 

e se eu fosse como vós

que tudo tendes

e mesmo quando não tendes fechais os olhos e tendes tudo ?

 

e se eu não pensasse ?

se eu fosse como vós

não haveria mais palavras

porque não haveria mais chaparros solitários

as estações estariam sempre certas e eu seria sempre feliz

à vossa maneira, é certo, mas feliz

 

mas não

continuo a dar-vos palavras que não o são

continuo à procura de não sei bem o quê

mas continuo sempre

 

dou-vos este corpo

que escorre sangue, sonho, amor e ódio

a quem por vezes apetece ser como o vosso

só para não ter nada que escrever

homens do mar da torreira


augusto vieira água a a lua; anos 90

o desafio

mora nos teus braços

que ninguém vê

(quem imagina que o mar os tem)

 

mas eu vejo-os verdes

brilhando revoltos

cobertos de espuma

 

encontro-te

ali onde ninguém

o olhar a perder-se

no infinitamente azul

 

aqui nasci e me fiz homem

não é agora que me assustarás

 

o barco

aguarda a voz do arrais

eu

não sou dos que esperam na areia

(memória de milfontes nos anos 80)


                                                     figueira da foz; 2007

queremos estar vivos hoje

recusamos grilhetas antigas de senhores que já matámos

recusamos prender estas bocas

que queremos transbordantes de música

queremos estar vivos hoje

lançar braços sobre o silêncio

rasgar a solidão que cerca de arame farpado

os corações amortalhados nas grandes metrópoles

queremos estar vivos hoje

dizer esta alegria por dentro de nós

derrubar muros e barreiras de línguas e nações

somos todos a mesma gargalhada

e ousamos querer tudo que a tudo temos direito

queremos estar vivos hoje

que ninguém nos venha dizer por onde devemos ir

porque hoje

hoje nós sabemos  que queremos

os caminhos por onde seguir

queremos estar vivos hoje

gritar raivas antigas alegrias novas

pontes que construímos para o amanhã

que hoje queremos nosso

porque hoje

hoje

queremos estar vivos sempre

                                                         amor à beira mar; 2007

de milfontes


                                    onde o branco é mais branco; portalegre; 2007

 

aqui há uma luminosidade mais viva

é como se a luz viesse de dentro das coisas

e poisasse suavemente nos dedos

numa carícia de algar e anémonas

 

aqui as palavras crescem pelo corpo

depois de nascerem junto à terra

 

aqui eu sei de um recanto perto do sol

onde ainda é possível sonhar

e as manhãs

as infinitas e angustiantes manhãs urbanas

têm cheiro a pão alvo e trigo maduro

 

aqui as palavras correm como o mira

que diz a canção vai cheio

e tu

tu aqui

estás ainda da outra banda

carlos aldeia


carlos aldeia; anos 90

 

amanhã outro dia
será

é assim no mar
vive-se cada dia como se
o primeiro
o último

amanhã outro copo
virá

é assim na tasca
um copo de ressaca
uma onda varre o corpo
uma carta sai do baralho
uma noite passa no tempo

amanhã outra faina
será

vida de pescador
é percorrer em terra
caminhos que no mar rasgou

e eu sou