se eu te der
o meu código postal
por favor
não escrevas
o número da porta
está errado
e já não
mora lá ninguém
se eu te der
o meu código postal
por favor
telefona
lembro
que me lembro
esquecendo
que me esqueci
a memória
é o esquecimento
do que não nos lembramos
falo deste estar aqui
ainda
sem saber porquê
aceitando o como
fazendo por ser
abraço
os dias e dentro deles
todos os que não esqueci
e nos que esqueci
a memória de o saber
deito-me
medito
e sou
trago no corpo
o sal do verão
bailes de mar
nos olhos
estou vivo
outono dentro de outono
continuo ainda
a ser corpo
virá a chuva
os dias mais curtos
o céu mais carregado
a angústia serena
agora
virá também o oiro
semeado nas vinhas
que não verei
porque longe do mar
tudo
o que é longe do mar
é longe de mim
até estas palavras
o são cada vez mais
(torreira; sol outonal)
se chover amanhã
estarei no deserto
estou sempre no outro
lado das coisas
se quiseres saber de mim
não me procures
eu já não estou
onde estive
quando tu
se chover amanhã
espero ter lenços de papel
para limpar as lágrimas
única chuva
no sítio certo
no momento exacto
estarei no deserto
só
eu
e ninguém por perto
se chover amanhã
abraça-me
sobre o vazio
os braços
estenderam-se
há algo lá dentro
um corpo
uma voz
uma carícia
um sonho
se perguntarem por
mim
diz que me viste ser levado
com
camisa de forças vestido
a boca tapada
as mãos atadas atrás
das costas
se perguntarem por mim
diz
que estava a agarrar o vazio
num dia de sol
foi então
que os mentores da ordem
polícias dos sonhos proibidos
me levaram
espero um dia
trazê-los comigo
entretanto
se perguntarem por mim
diz
não partiu
que ele não parte nunca
deve de estar a chegar
(coimbra; calçada portuguesa; 2006)
que não disse
o que disse
embora todo povo ouvisse
comeremos
pequenas e saborosas
as bananas
jamais seremos porém
as bananas que comemos
do estado conselheiro
seria exemplo a seguir
que a tão alto cargo se guindou
que não disse
disse
aí chegou
a república
quase das bananas
que não dos mesmos
haja decência
ouvimos
mas como
se já não há paciência
célebre a frase
nos ouvidos ecoa
obviamente demito-o
a isto chegámos
só nos faltava o buraco
no cérebro
que da ilha nos querem
vender
não
não escrevo o teu nome
seria (escre)ver-te
e eu quero-te assim
para além da degradação
que o tempo sempre
traz
quero-te a menina
de há 40 anos
num baile de verão
num abraço sem tempo
trazias as palavras
que eu não sabia
ensinaste-me
” a pedra do reino”
e a jóia eras tu
não
não escrevo o teu nome
sequer o murmuro
deixo que corra pelo silêncio
o grande silêncio onde moram
as palavras nunca ditas
mas com que sonhamos
todos os dias
até sempre