a cruz da xávega
as cordas pesam
mães das redes
trazem as filhas a terra
para parirem na areia
o que o mar fecundou
as cordas pesam
as palavras estão vivas
partirei com o sol e a minha loucura
para quê dizer adeus?
o regresso
o eterno regresso
é aquilo que resta
sempre que partimos
e eu não volto
partirei com o mar
clandestino
embarcarei em todos os navios
que cedo ou tarde se afundam
em praias longínquas
deixando os destroços
encontrarás então nas areias brancas
brancos os meus ossos
e lembrar-te-ás de mim
e do regresso
e da loucura
agora bebo no mar
as forças
para a grande viagem
não vos dou palavras
dou-vos pernas, braços e um coração naufragado
não vos dou palavras
dou-me a mim todo transubstanciado em poema
aceitem, se quiserem, as palavras que não vos dou
mas não aplaudam
o vosso espectáculo
são as minhas lágrimas, angústias e desesperos
não vos dou palavras
dou-vos bofetadas que, por vezes, aceitais com um sorriso
porque o sorriso é a vossa reacção típica
e se eu não escrevesse ?
e se eu não vivesse de olhos abertos sobre cada dia
em cada dia suportando estar vivo
inventando searas e papoilas no deserto dos vossos olhos ?
e se eu pudesse dormir como vós descansadamente
com um policial ou um romance à cabeceira
e se eu me sentisse satisfeito com a telenovela
e me bastasse o mau gosto de um jantar num restaurante de três estrelas
“em boa companhia”
para ser feliz ?
e se eu fosse como vós
que tudo tendes
e mesmo quando não tendes fechais os olhos e tendes tudo ?
e se eu não pensasse ?
se eu fosse como vós
não haveria mais palavras
porque não haveria mais chaparros solitários
as estações estariam sempre certas e eu seria sempre feliz
à vossa maneira, é certo, mas feliz
mas não
continuo a dar-vos palavras que não o são
continuo à procura de não sei bem o quê
mas continuo sempre
dou-vos este corpo
que escorre sangue, sonho, amor e ódio
a quem por vezes apetece ser como o vosso
só para não ter nada que escrever
augusto vieira água a a lua; anos 90
o desafio
mora nos teus braços
que ninguém vê
(quem imagina que o mar os tem)
mas eu vejo-os verdes
brilhando revoltos
cobertos de espuma
encontro-te
ali onde ninguém
o olhar a perder-se
no infinitamente azul
aqui nasci e me fiz homem
não é agora que me assustarás
o barco
aguarda a voz do arrais
eu
não sou dos que esperam na areia
queremos estar vivos hoje
recusamos grilhetas antigas de senhores que já matámos
recusamos prender estas bocas
que queremos transbordantes de música
queremos estar vivos hoje
lançar braços sobre o silêncio
rasgar a solidão que cerca de arame farpado
os corações amortalhados nas grandes metrópoles
queremos estar vivos hoje
dizer esta alegria por dentro de nós
derrubar muros e barreiras de línguas e nações
somos todos a mesma gargalhada
e ousamos querer tudo que a tudo temos direito
queremos estar vivos hoje
que ninguém nos venha dizer por onde devemos ir
porque hoje
hoje nós sabemos que queremos
os caminhos por onde seguir
queremos estar vivos hoje
gritar raivas antigas alegrias novas
pontes que construímos para o amanhã
que hoje queremos nosso
porque hoje
hoje
queremos estar vivos sempre
aqui há uma luminosidade mais viva
é como se a luz viesse de dentro das coisas
e poisasse suavemente nos dedos
numa carícia de algar e anémonas
aqui as palavras crescem pelo corpo
depois de nascerem junto à terra
aqui eu sei de um recanto perto do sol
onde ainda é possível sonhar
e as manhãs
as infinitas e angustiantes manhãs urbanas
têm cheiro a pão alvo e trigo maduro
aqui as palavras correm como o mira
que diz a canção vai cheio
e tu
tu aqui
estás ainda da outra banda
carlos aldeia; anos 90
amanhã outro dia
será
é assim no mar
vive-se cada dia como se
o primeiro
o último
amanhã outro copo
virá
é assim na tasca
um copo de ressaca
uma onda varre o corpo
uma carta sai do baralho
uma noite passa no tempo
amanhã outra faina
será
vida de pescador
é percorrer em terra
caminhos que no mar rasgou
e eu sou