poesia
espelho meu, ria minha
quando as bateiras morrem na areia
falo das janelas
o meu poema
um dia
o meu poema vai levantar voo
das folhas brancas
um dia
o meu poema ave vai encontrar-te
na planície da ausência presente
e pousar suavemente
nos teus olhos sequiosos de luz
um dia
o meu poema barco
partirá para os mares de bocas
lábios gretados em busca de palavras
um dia
o meu poema
deixará de ser
meu
pensamentos (I)
pôr do sol à beira do olá sampaio
o momento
o exacto instante em que o sol
se deita sobre as ondas
jamais o fim
o mar permanece e aconchega
as ondas abraçam o sol e deitam-se
cansado do seu percurso
diurno
a tudo isto assiste
de braços abertos
silenciosamente cúmplice o barco
o sol encontra nas ondas
o regaço para tanto andar
assim eu
voltarei ao mar
nada temos a ver convosco
nada temos a ver convosco
para nada queremos os vossos padrões de vida
odiamos fatos e gravatas e passeios dominicais com a família
nas páginas amarelas do vosso dia a dia
nunca encontraremos o indicativo para o nosso futuro
nada temos a ver convosco
há um abismo imenso a separar-nos
queremos ser nós
não queremos os vossos conselhos nem a vossa sabedoria
guardai-os para aqueles que, sendo novos, são como vós
e no lugar do cérebro têm uma lata de peixe congelado
nada temos a ver convosco
o vosso paraíso é para nós sufocação e túmulo
detestamos o vosso subir na vida
queremos subir, sim, mas para mais perto da natureza
sermos límpidos e claros
como as antemanhãs no alto da serra
deixem-nos em paz
que nos nada queremos de vós
manuel vieira água a lua

manuel vieira água a lua
é de mar que falo
quando digo
o sal queima
e deixa em mim este sabor amargo
de ser salgada também a água
que me corre nas veias
quando à noite na tasca
as espadas são trunfo
e o copo de tinto
o ás sobre a mesa
é ainda o mar que dita a sorte
despeço-me do óscar miguel
(despeço-me do óscar miguel)
óscar miguel
era assim
qual gaivota prestes a levantar voo
preparadas as cordas
as redes a caminho
que
de asas abertas o óscar
iniciava os seus voos
era este o seu mar
o leito por onde corria
o sangue de ser barco
a xávega
perdeu um filho
o mar um amigo
e todos ficámos mais pobres
o óscar miguel
era barco
mas é com um abraço
que lhe digo
até às ondas irmão










