para nelson mandela


foto tirada de pessoasempessoa.blogspot.com

uma corda
desce pela parede
dos dias

um raio de sol
espreita
por entre grades

o cimento
cheira a homens
cheira a suor
a sangue
a luta

negras
as vozes erguem-se
nas ruas
os corpos movem-se
ao sabor de danças guerreiras
herdadas
jamais roubadas
sonegadas
branqueadas

pedra a pedra
o cimento caiu
a luz entrou
o muro ruiu

a luta
ainda não terminou
mas o teu dia
madiba
é O DIA

efémero


espuma do tempo
isto somos
tudo e nada
o momento o diz

onde fomos
ainda seremos?
onde somos
seremos o que fomos?

quando não formos
quem será
o que fomos?

sento-me
em frente ao mar
não penso
sento-me
apenas

isso sou
hoje
aqui
onde estou

um homem sentado
a olhar o mar

(torreira; 2010)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quando o mar trabalha na torreira_flávia


sou
a que nunca ficou em casa
nunca foi ao mar

sou
a que ajuda a empurrar o barco
a que o espera em terra

sou
a que escolhe o peixe
e entre duas picadas de peixe aranha
se levanta
e nasce na areia um outro rio

sou
a mãe
a mulher
a filha
a viúva

sou
a mulher da arte
que a arte não lembra

(torreira; anos 90)

quando o mar trabalha_incerto fruto


é este o fruto
que o mar dá

prateadas cores
rebrilhantes ao sol
falam de mar

aguardam o transporte
as caixas

atento o arrais
calcula o lanço

deu
não deu
volto hoje
espero outra maré

é este o fruto
incerto 
que do mar tiro

 (sabes das mãos e dos frutos? lembras-te do eugénio?)

cândida


cândida
ao longe a esperança começa
a nascer
o barco lançou o saco
inicia o regresso

trará a rede peixe ?

do mar o incerto pão
nem sempre mata a fome
paga o esforço o suor as gargantas secas
de tanto gritar

não somos dos que desistem
enquanto houver sol e o mar permita
o barco partirá
sempre
em busca do peixe
do pão que o mar dá

(torreira; séc XX)