súbito


de dentro

ninguém é tão forte
quanto julga
ninguém é tão fraco
quanto parece

olha-te
antes
de veres

……

os rios
correm
para o mar

só eu
corro
sem destino

……

magoa-te

hoje
amanhã
serás imune

……

os dias
não pesam
tu neles

…..

acorda
comigo
não durmas

…..

quando
acordei
não eras tu

…..

o teu rosto
as minhas mãos
um poema

…..

eu sou
tu és
nós seremos?

…………

o óbvio
é
um espanto

da memória


cores

 

um silêncio azul povoado de bruma e mãos

os rios inventam o leito

e morrem ao longo das margens

 

não há destino avesso a naus e marinheiros

 

o mar soa por entre os pinheiros

num marulhar de caruma

 

um sabor a sg ventil nos lábios

 

sabes

o desejo nunca cabe num só corpo

e depois

para tanto ser uma pequena tenda basta

até breve nicole


nicole

 

até breve nicole

findos os lanços
a praia ficava para trás
o mar mais longe

caminhavas para terra
para a ti rosa
onde os amigos que já não
te esperavam:

o ti miguel bitaolra
o teu amigo maior
todos
todos na ti rosa
eram teus amigos

todos
todos na ti rosa
são teus amigos

todos
todos na ti rosa
sabem de cor o teu nome
porque o têm gravado no coração
coração de pescadores
onde os peixes por vezes
têm nome de gente

foste e serás sempre
um deles

(torreira; companha do marco; 2010)

piano


 

estou assim  

piano

moltissimo  

 

estou assim

piano não sei de chão

dessa coisa chamada terra

onde os pés o corpo

poisam

assim mesmo como se

talvez quem sabe tu?

não sei se porque

não te sei também  

 

aqui sou tudo

sou tudo

e não sou ninguém  

 

o piano

leva-me nos braços das notas

ao encontro da noite longuíssima

onde outrora a ternura

tingia de cores garridas

os lençóis  

 

loucos

foram os tempos

e eu