se outros mundos houver


somália (da net)

 

quanto vale um americano?

20 chilenos?

100 árabes?

1000 africanos?

 

quantos vidas

vale um dólar?

 

“in god we trust”

pobre deus se existes

para onde te levaram

nada mais que uma moeda

de troca por sangue

com cheiro a fruta, a petróleo

 

há palavras

que são perigosas

a verdade quando escrita

ainda é mais perigosa

 

há palavras

que são a carne de um sonho

o esqueleto de uma utopia

a coluna vertebral de uma sociedade

 

escrevem-nas diariamente com sangue

os povos deste mundo

nas paredes da terra

para que, se outros mundos houver,

se saiba do que aqui se passa

11 de setembro de 1973/2001


imagem do bolg groovegrave.blogspot.com

 

porque compramos

o que os media

nos vendem

porque há quem só

compre o que os media

vendem

 

porque ainda há memória

 

não são só as torres gémeas

que hoje deveriam ser lembradas

mas também, e mais do que elas,

o golpe levado a cabo neste dia

por augusto pinochet

ao colo da cia

e da escola neo liberal de chicago

os “chicago boys”

 

porque a história

não pode ser reescrita em inglês

sempre

 

porque o sangue é o mesmo em todos

os seres humanos

 

porque hoje esquecem-se muitos

para lembrar uns poucos

 

eu quero aqui lembrar todos

os que morreram assassinados

torturados sinistramente

pelas mãos mais “limpas” deste mundo

 

pela verdade na história

pela história da verdade

hoje fazem 120 anos que louis armstrong nasceu


foto do google

‎(pequeno poema recordando satchmo)

o silêncio
dos teus olhos
que gritam

onde os rios?
as florestas?
a savana?

os teus olhos mortos
para a luz
trazem neles uma vida
onde a nossa se abre a outro
sol

na tua voz
na tua música
brilha o grito de uma raça
o desejo de paz e poemas
sem fome nem guerra

um mundo de que nos orgulhemos
e onde possamos, de facto, ouvir dizer:
what a wonderful world
em todas as línguas

salvé satchmo

quando o mar trabalha na torreira_marine


                                          (torreira; anos 90)
olho o peixe
salta na rede
estrebuchando na agonia do sufoco

também isto devo aprender
a linguagem da morte
não me será jamais estranha

gostaria de brincar
com aqueles peixes prateados
as minhas bonecas de menina
vivas

mas
este não é lugar de brincar

no meu rosto
a mulher que deste tamanho já sou
contempla o trabalho que a rede encerra
em que participei
com as migalhas que tinha para dar

como são grandes estes dias!
com eles cresço e fico maior
mulher do mar


(do meu livro "quando o mar trabalha")

quando o mar trabalha na torreira_henrique da bóia


(henrique da bóia; torreira; anos 90)

há quanto tempo não sonho

afinal o mar não é de vinho
e o ti borras nunca foi à américa

ficámos onde nascemos

lembro-me de
criança ainda
ajudar a minha mãe na escolha do peixe
ver no meu pai
o eu de amanhã

as dunas
eram então o meu esconderijo
agachado no seu ventre espreitava
o futuro

era o mar
que me chamava

à memória de carlos paredes


a paixão da guitarra

(no aniversário da morte de carlos paredes  – 23 de julho)

que palavras
te dizer
agora
que tu já não?

mas tu
és ainda
não o seres
seria não teres sido

do pau de uma vassoura
em caxias
fizeste braço de guitarra
e tocaste
sem som
sem cordas
mas com alma

que palavras
te dizer
sobre pautas
com claves
aguardando as notas
que para ti
hão-de outros
escrever?

a guitarra geme
o homem vibra
os ouvidos choram e riem
por ti carlos